UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

17 de janeiro de 2017

FLECHAS DE FOGO (BROKEN ARROW) – WESTERN QUE RESPEITOU OS APACHES


Robert Taylor; Richard Dix
“Flechas de Fogo”, dirigido por Delmer Daves, é geralmente considerado o precursor dos westerns que trataram os índios com dignidade. Porém é importante ressaltar que “A Passagem do Diabo” (Devil’s Doorway), de Anthony Mann com Robert Taylor foi filmado praticamente ao mesmo tempo de “Flechas de Fogo” e igualmente mostra os nativos norte-americanos de modo simpático, ambos os filmes rodados em 1949 e somente lançados em 1950. O público havia se acostumado com a espécie de lavagem cerebral que o cinema praticava colocando os índios sempre como vilões cujas mortes se faziam necessárias para conter a selvageria dos peles-vermelhas. Outro registro digno de nota é lembrar que muito antes Hollywood já rompera com o provérbio atribuído ao General Philip Sheridan que ‘O único índio bom é um índio morto’. Em 1925 Richard Dix como o índio ‘Nophaie’ estrelou “Alma Cabocla” (The Vanishing American) e em 1932 foi a vez de “O Fim da Trilha” (The End of the Trail), com Tim McCoy mostrar os índios com simpatia. O mesmo ocorreu claramente em “O Intrépido General Custer” (They Died with their Boots On) e em “Sangue de Heróis” (Fort Apache), respectivamente de 1941 e 1948 e dirigidos por Raoul Walsh e John Ford e nos quais sem condescendência os nativos são vistos como bravos guerreiros dignos de respeito. Mas foi sem dúvida o western de Delmer Daves que originou a série de filmes revisionistas que mudou a visão histórica do cinema sobre os índios.


James Stewart com Jeff Chandler
e com Jay Silverheels (abaixo).
Conhecendo melhor os Apaches - O roteiro de “Flechas de Fogo”, de autoria de Albert Maltz, baseou-se na história “Blood Brother”, escrita por Elliott Arnold contando como se deu a amizade entre Tom Jeffords (James Stewart) e o chefe Apache Cochise (Jeff Chandler). Jeffords é um ex-oficial da União que cavalga pelo Arizona em busca de ouro ou prata. Encontra um jovem índio ferido e cuida dele, salvando-o da morte certa e isto faz com que Jeffords consiga chegar até Cochise com quem faz amizade. Entre os Apaches Jeffords se enamora de Sonseeahray (Debra Paget), com quem vem a casar com o consentimento de Cochise. Jeffords passa a se empenhar pela paz entre Apaches e os homens brancos, o que interessa a Washington que envia ao Arizona o General Oliver Howard (Basil Ruysdael) para essa missão pacificadora. Cochise é partidário de acordo que sele a paz definitiva, mas ocorre que tanto do lado dos Apaches como dos brancos invasores de seus territórios há grupos contrários ao acordo. Jerônimo (Jay Silverheels) lidera o rompimento com Cochise promovendo ataques a diligências e roubo de gado, enquanto Ben Slade (Will Geer) comanda brancos insatisfeitos que querem a morte de Cochise. Sonseeahray morre numa emboscada preparada para matar Cochise, morrendo também Slade, ficando o exemplo deixado por Jeffords e Cochise apontando que a paz seria sim possível.

Will Geer, Jeff Chandler e James Stewart
A paz suspeita - Albert Maltz foi um dos dez roteiristas que entraram para a lista negra do Macarthismo, sendo preso e proibido de trabalhar. Antes disso deixou pronto o roteiro de “Flechas de Fogo” que corajosamente foi produzido por David O. Selznick para a 20th Century-Fox, chocando inicialmente público e crítica ao mostrar a cultura Apache, seus valores e nobreza de caráter através do chefe Cochise. Indispondo-se com parte de seus bravos que não aceitavam a paz pois ela não vingava os milhares de irmãos mortos pelos brancos, Cochise entendia que a continuidade da luta fatalmente levaria os Apaches à extinção. Para ele a paz era a única saída, ainda que os gananciosos invasores das terras onde viviam os nativos, com a ajuda da Cavalaria, trouxessem dúvidas se aquela seria mesmo a melhor opção. A amizade com Tom Jeffords e mais tarde com o General Howard, também chamado ‘General Bible’ (Bíblia), fez com que Cochise decidisse pela paz. Repleto das melhores intenções, o western de Daves não consegue levar às últimas consequências um dos aspectos mais importantes do filme que é a miscigenação que ocorreria com o casamento entre Tom Jeffords e a jovem índia Sonseeahray. Consumado o enlace segundo o ritual Apache, mesmo com um discurso sobre a temeridade da união que jamais seria aceita pelos brancos, Sonseeahray vem logo a ser morta, o que atenua a força do roteiro. Em “Renegando Meu Sangue” (Run of the Arrow), que Samuel Fuller dirigiu em 1957, o personagem de Rod Steiger se casa com a índia Sioux interpretada por Sara Montiel (quem não se casaria), com ela ficando ao final do filme. Mas talvez isto demorasse mais a acontecer se “Flechas de Fogo” não tivesse abordado esse difícil tema.

James Stewart e Basil Ruysdael

Jeff Chandler
O Cochise do moreno Jeff Chandler - Quase inteiramente filmado nas belas paisagens do Arizona, a fotografia é um dos pontos altos deste western, ao lado da eficiente música de Hugo Friedhofer pontuando as ações. As sequências envolvendo confrontos entre Apaches e brancos se resumem a rápidas emboscadas praticadas por renegados índios e homens brancos de má índole. Cochise mesmo é mostrado como homem sábio, ponderado e longe de ser um guerreiro e isso é evidenciado pela imutável expressão de Jeff Chandler, filmado muitas vezes de baixo para cima para melhor afirmar sua grandeza de chefe Apache. Chandler personifica um dos Apaches mais ‘clean’ que o cinema mostrou, contrastando mesmo com James Stewart, este ainda não o homem do Oeste perfeito que se tornaria na excepcional quina de westerns em que atuou sob a direção de Anthony Mann nessa mesma década. Jeff Chandler, novaiorquino filho de judeus e que curiosamente tinha pele morena, voltaria a interpretar Cochise no filme “O Levante dos Apaches” (The Battle at Apache Pass), em 1952, antes de se tornar um dos galãs preferidos de Hollywood. Indicado para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por sua interpretação como o chefe Apache, Chandler perdeu o prêmio para George Sanders (“A Malvada”) e o que intriga é que Chandler como Cochise mantém durante todo o filme o mesmo semblante, sem nenhum momento de maior dramaticidade. “Flechas de Fogo” concorreu ainda nas categorias de Melhor Roteiro (Albert Maltz) e Melhor cinematografia (Ernest Palmer), perdendo em ambas e seria inimaginável a Academia premiar, em 1951 a um ‘blacklistado’ como Maltz.

Debra Paget com James Stewart
Casamento Apache - O romance neste western pró-índio se passa entre James Stewart (com sua já inseparável peruca aos 41 anos de idade) e a ainda adolescente Debra Paget no frescor dos seus 16 anos de idade e como não poderia deixar de ser, romance pouco convincente. Muito bonita, Debra sorri o tempo todo iluminando a tela com sua beleza e apenas isso. Uma pena que justamente essa subtrama, que poderia ser até mais importante que o tema principal do filme, tenha um desfecho imposto pela moral então vigente em Hollywood, moral que não aceitaria ver um de seus mais representativos astros ser parte de uma provocativa miscigenação. As sequências de romance entre Stewart e Debra, incluída a cerimônia de casamento Apache, são para dizer o mínimo, mornas. Com um elenco de apoio com coadjuvantes do nível de Arthur Hunnicutt, John Doucette e Will Geer, o filme os desperdiça em aparições pequenas, no caso de Hunnicutt e Doucette insignificantes mesmo. Menos mal o aproveitamento de Jay Silverheels quando se preparava para assumir a identidade de ‘Tonto’ na série ‘The Lone Ranger’ para a TV. O canadense Silverheels tem rara oportunidade de uma interpretação dramática como Gerônimo, o Apache que não aceita a submissão de Cochise às propostas de paz dos bracos.

Jay Silverheels; Debra Paget e James Stewart

Delmer Daves
Estimado clássico pró-índio - Por abordar diretamente um tema quase ignorado pelo cinema norte-americano que é mostrar o índio e sua cultura de modo respeitoso e os brancos como vilões verdadeiros na História, “Flechas de Fogo” merece a importância adquirida e ter se tornado um clássico no gênero. Gerou inclusive uma série de TV intitulada “Cochise” protagonizada por Michael Ansara e com John Lupton como Tom Jeffords, série que ficou no ar por três temporadas. Os anos e westerns seguintes reservavam tanto para Delmer Daves como para James Stewart filmes melhores que este bom e bastante estimado “Flechas de Fogo”.


1 de janeiro de 2017

QUELÉ DO PAJEÚ, O DESAPARECIDO NORDESTERN DE ANSELMO DUARTE


Lima Barreto e
Anselmo Duarte
Lima Barreto, o cineasta, era também escritor e um de seus livros foi “Quelé do Pajeú”, que Lima tencionou levar ao cinema. Excêntrico e de temperamento difícil, o que se refletiu em dificuldades de produção em todos seus projetos inclusive no bem sucedido artística e comercialmente “O Cangaceiro”, Lima Barreto viu fracassar a tentativa de transformar “Quelé do Pajeú” em filme. Escreveu o roteiro e com ele debaixo do braço saiu em busca de financiamento, mas aos 63 anos de idade e cada vez mais irascível, viu todas as portas se fecharem. O roteiro de Lima Barreto chegou às mãos de Anselmo Duarte que leu e imediatamente se interessou em filmá-lo, impondo a condição de fazer algumas alterações na história, com o que a princípio Lima concordou. O terceiro filme de Anselmo Duarte, “Veredas da Salvação” (1965) não havia repetido o êxito comercial de “O Pagador de Promessas”, mas mesmo assim Anselmo conseguiu apoio financeiro de pessoas físicas e jurídicas. Além do Instituto Nacional do Cinema (INC), nada menos que sete bancos decidiram investir no projeto, assim como gente conhecida como o colunista social Ibrahim Sued e o crítico carioca Carlos Fonseca. Com um bilhão de cruzeiros para seu novo projeto, Anselmo Duarte não teve dificuldades em contratar Tarcísio Meira, já então mais famoso galã da televisão e a atriz Izabel Cristina (que mudou o nome para Guy Loup) igualmente conhecida, além de Jece Valadão e Rossana Ghessa para os principais papéis. Lima Barreto pretendia filmar “Quelé do Pajeú” no sertão pernambucano buscando maior autenticidade, mas Anselmo levou a equipe para a sua cidade natal, Salto de Itú, uma espécie de Alabama Hills cabocla, onde o filme foi quase inteiramente rodado.


Tarcísio Meira e Elizângela Vergueiro;
Tarcísio com Rossana Ghessa.
Juramento de vingança - O nome de Lima Barreto consta nos créditos como autor da história e co-roteirista, mas Lima deu várias entrevistas mostrando-se inconformado com as alterações feitas por Anselmo Duarte que teriam desvirtuado seu texto original. No filme Quelé do Pajeú é o apelido dado pelo Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião (Luiz Alberto Meirelles), ao vaqueiro Clementino Celidônio (Tarcísio Meira) que certo dia retorna para casa e se depara com uma tragédia. Um forasteiro com uma cicatriz na testa e sem o dedo mindinho da mão direita após agredir a mãe de Clementino (Anita Isbano) violenta sua irmã Marizolina (Elisângela Vergueiro). Quelé jura vingança e sai à procura do desconhecido e entre as pessoas que encontra nessa busca está Maria Rita (Izabel Cristina) e o bando de Lampião. Mais tarde Quelé conhece a jovem Maria do Carmo (Rossana Ghessa) que por ele se apaixona e que passa a acompanhá-lo. Finalmente Quelé se depara, na cidade de Imbé, com Cesídio da Costa (Jece Valadão), o homem que desgraçara sua família, justamente no dia em que Cesídio vai se casar. Quelé faz o noivo seu prisioneiro e o obriga a acompanhá-lo até seu sítio em Pajeú das Flores, bem como um padre (Sergio Hingst) a quem ordena que case Cesídio com Marizolina que engravidara após o estupro sofrido. Em Imbé Quelé havia matado um cabo ao se defender da polícia local e é perseguido por uma patrulha. A milícia cerca seu sítio mas Quelé, ajudado por Cesídio, defende-se trocando tiros com a força policial. Cesídio morre no tiroteio e Quelé está prestes a ser morto quando surge um bando de cangaceiros comandado por Lampião dizimando a milícia. Sabedor que será procurado pela Justiça, Quelé se torna mais um cabra do bando de Lampião, vendo Maria do Carmo, grávida de seu filho, ser morta por um tiro disparado pelos ‘macacos’ de uma volante.

Jece Valadão; Luiz Alberto Meireles e
Jorge Karam.
O nordestern de Anselmo Duarte - Em suas pesquisas sobre o cangaço, Lima Barreto descobriu que existiu um pernambucano chamado Clementino Furtado, apelidado de Quelé, e que após ter participado do bando de Lampião, tornou-se policial. Atingindo o posto de sargento, Quelé foi um dos mais tenazes perseguidores de cangaceiros, comandando uma volante conhecida como ‘Coluna Pente Fino’, responsável pelo extermínio de dezenas de cangaceiros. Sargento Quelé, que era lembrado como ‘a valentia em pessoa’ veio a falecer de morte natural em 1955 e inspirou Lima Barreto a criar o personagem protagonizado por Tarcísio Meira. No mesmo ano em que foi produzido “Quelé do Pajeú’, Glauber Rocha filmou seu “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, ambos autênticos nordesterns, ou seja, faroestes ambientados no sertão nordestino mas com diferentes pretensões estéticas. Glauber, que viajava bastante, conhecia a nova linguagem dos westerns produzidos na Europa, cujos expoentes eram Sergio Leone e Sergio Corbucci. Anselmo Duarte, por seu lado, tinha “O Cangaceiro” e o ciclo que se desenvolveu posteriormente sobre o cangaço, como modelos para seu novo filme. Glauber era uma espécie de unanimidade para a crítica, sendo seu novo filme com o personagem Antônio das Mortes saudado como obra de gênio. Sem a mesma repercussão na imprensa, Anselmo Duarte com “Quelé do Pajeú” realizou um dos melhores exemplares do gênero nordestern.

Rossana Ghessa, Sergio Hingst, Jece Valadão e
Tarcísio Meira; Luiz Alberto Meireles;
Desafio à ditadura militar - Tecnicamente muito bem produzido, sendo o primeiro filme nacional em 70 mm e som estereofônico, “Quelé do Pajeú” reafirma o inegável talento de seu diretor. Anselmo imprimiu ritmo quase perfeito à odisseia de Quelé na consecução de sua vingança, alternando cenas de ação, romance e sensualidade sem deixar de observar os aspectos religiosos, mesmo o fanatismo tão comum ao homem simples. A história ganha nuances que desafiam os costumes tidos como normais a exemplo da inusitada vingança de Quelé ao obrigar Cesídio, retirado do altar de uma igreja em seu casamento, para se casar com sua irmã, o que é visto com naturalidade por todos. Mesmo Cesídio tem direito a explicar que nada demais fez a não ser cumprir seu dever de macho e ninguém melhor que Jece Valadão para usar essa tese. Sem qualquer compromisso com a defesa da ordem legal, cangaceiros são mostrados simpaticamente, dividindo com o povo o produto dos saques praticados, ainda que por vezes pratiquem alguns excessos abusando de suas vítimas. Nunca mostrados como bandidos, mas sim como gente alegre, valente e justa, os cabras liderados pelo Capitão Virgulino Ferreira vencem sempre as forças policiais organizadas fazendo de “Quelé do Pajeú” um filme desafiador no mais grave momento da ditadura militar no Brasil. Ao final, vendo sua mulher grávida ser morta pelas forças do governo, Quelé segue sua vida ao lado dos cangaceiros em busca de justiça social. Ainda bem que os rigorosos censores cochilaram e o filme de Anselmo Duarte foi exibido normalmente, por algum tempo...

Tarcísio Meira e Jece Valadão
Sequências antológicas - O maior defeito de “Quelé do Pajeú”, por sinal comum em nosso cinema, é transformar pessoas simples em filósofos capazes de expressar frases de grande profundidade. Quelé fala só o suficiente e no linguajar típico de sua gente, mas outros personagens como Maria do Carmo, Cesídio, Maria Rita e até o guarda do quarteirão (Simplício) são cansativos com suas falas recheadas de alcance psicológico quando não metafísico. Queixosa com a quase mudez de Quelé, Maria do Carmo lhe diz: “Já não basta o silêncio do deserto que parece sem vida...”. Se Anselmo Duarte não soube evitar esse tipo de armadilha, por outro lado apresenta em seu filme sequências que merecem fazer parte de qualquer antologia do nosso cinema. Maria do Carmo rejeitada por Quelé monta o cavalo e se excita durante a cavalgada até atingir o orgasmo numa sequência de extraordinária beleza e sensualidade. A luta entre Quelé e Cesídio, inicialmente com facão e punhal, depois com pedaços de madeira e terminando com punhos é excepcionalmente bem coreografada e sem o uso de dublês, em outro momento supremo deste filme. Quelé demonstrando sua coragem e Lampião aceitando o desafio e arriscando a vida “...seja o que Deus quiser...” para reafirmar sua macheza é também uma sequência admirável.

Rossana Ghessa

Geraldo Vandré e Izabel Cristina
Trilha sonora inferior - A trilha sonora musical de “Quelé do Pajeú” foi composta por Marconi Campos, Hilton Acioli e Théo de Barros, sendo executada pelo Trio Marayá, formado por Marconi, Hilton e Behring Leiros, todos maranhenses. Esses músicos acompanharam Geraldo Vandré nas apresentações das canções “Disparada” e “Ventania”, que Vandré levou aos festivais da TV Record. Porém as canções utilizadas no filme não possuem a força destas citadas ou de outras compostas por Vandré, deixando o espectador durante o filme todo à espera de uma canção mais vigorosa, o que não ocorre, não propiciando, assim, maior força dramática às imagens capturadas pelo cinegrafista José Rosa. Uma pena mesmo, ainda mais porque consta que Geraldo Vandré tenha participado como ator sem que possa ser identificado com maior certeza. Essa e muitas outras dúvidas cercam “Quelé do Pajeú”, dúvidas que infelizmente não podem ser esclarecidas visto que a maior parte dos participantes desta produção já faleceu. A atriz Isabel Cristina, ou Guy Loup, que há anos reside na França, seria uma fonte fidedigna, assim como o próprio Vandré e Rossana Ghessa.

Tarcísio Meira; Simplício e Izabel Cristina.
Tarcísio Meira como sertanejo - Aos 34 anos Tarcísio Meira protagonizou brilhantemente o personagem principal deixando longe sua imagem de galã para interpretar o sofrido Quelé. Jece Valadão igualmente excelente não precisando se esforçar muito para compor mais um canalha na extensa galeria de tipos que viveu no cinema, se bem que seu personagem Cesídio termina por se redimir e lutar ao lado de Quelé. A linda Rossana Ghessa, italiana de nascimento, era uma resposta do cinema brasileiro a Claudia Cardinalle e sai-se bem como Maria do Carmo, personagem completamente diferente das tantas que se acostumou a interpretar mas com igual poder de sedução. E sensualidade é o que não falta também à bonita Izabel Cristina, em papel menor. Elizângela, aos 14 anos é Marizolina, ela que teve seu auge como mulher sensual nas novelas nacionais. Sergio Hingst, eficiente como de hábito completa o elenco central que tem um Lampião alourado e sem os óculos característicos. Jorge Karam é um dos cangaceiros e Simplício (Francisco Flaviano de Almeida) tem participação pequena mas cansativa o suficiente superatuando desnecessariamente. Anselmo Duarte era muito bom na direção de atores mas acabou deixando Simplício se exceder. Regina Duarte paris, a filha de Anselmo Duarte faz uma ponta como a noiva de Cesídio.

Rossana Ghessa, Elizângela Vergueiro, Jorge Karam e Sergio Hingst

Tarcísio Meira; Tarcísio e Rossana Ghessa.
Filme descoberto 40 anos depois - Uma vinheta do Canal Brasil diz assim: “O que seria do Brasil sem... o Canal Brasil”. De fato, haveria uma lacuna impossível de ser preenchida pois entre as dezenas e dezenas de produções nacionais rodadas sob os auspícios da Lei Rouanet, o Canal Brasil nos presenteia com um filme como “Quelé do Pajeú” e outros clássicos do nosso cinema. Nossa produção cinematográfica sempre lutou por espaço nas salas exibidoras, como foi o caso deste filme de Anselmo Duarte que permaneceu por seis semanas em cartaz no Cine Windsor. Já a imensa maioria das dezenas (ou centenas) de filmes que o Brasil produz neste novo século são exibidos apenas nas madrugadas do Canal Brasil. A incúria dos donos da nossa cultura permitiu que “Quelé do Pajeú” fosse dado como desaparecido por 40 anos pois não se sabia da existência de uma única cópia sequer. E disso se aproveitou bem Anselmo Duarte que gostava de dizer que seu melhor filme era exatamente “Quelé do Pajeú”, aquele que ninguém mais podia assistir. E uma lenda se criou em torno dessa obra até que um certo Paulo Wenceslau Duarte, descobriu na Europa uma cópia em muito bom estado. Essa cópia foi a exibida na Itália pois contém legendas em Italiano e, ainda bem, foi resgatada e apresentada como presente de Natal em 2016 pelo Canal Brasil. Anselmo Duarte estava certo ao falar bem de “Quelé do Pajeú”, um grande filme, sem dúvida, mas aquém da poética simplicidade de sua obra-prima “O Pagador de Promessas”.

17 de dezembro de 2016

DESBRAVANDO O OESTE (THE WAY WEST) - UM ÉPICO QUE NÃO INTERESSOU AO PÚBLICO


Acima o autor A.B.Guthrie Jr. abaixo Andrew
V. McLaglen, Harold Hecht e Kirk Douglas.
Foi, talvez, de Jack Elam o melhor comentário sobre este filme, quando disse: “Foram tão árduas as filmagens de ‘Desbravando o Oeste’ que me deu uma profunda tristeza ler as críticas, quase todas negativas, e ver o público ter fugido do filme. Enquanto filmávamos achávamos que seria um daqueles filmes inesquecíveis e de grande sucesso...” Quando publicado em 1949, “The Way West”, de autoria de A.B. Guthrie Jr., foi premiado com o Prêmio Pulitzer e passou a ser disputado por produtores de Hollywood pois todos apostavam que aquele seria o maior épico do gênero western. Quem ganhou a briga pelos direitos cinematográficos foi a Hecht-Lancaster, produtora do grande ator que vinha realizando uma série de excelentes filmes. Só com o roteiro encomendado a Clifford Oddets foram gastos meio milhão de dólares e no projeto para o filme Burt Lancaster teria a companhia de James Stewart e Gary Cooper. Ambos, porém, com a agenda cheia e pelas dificuldades que se avizinhavam nas locações logo desistiram. “The Way West” dormiu nas prateleiras até que o império que Lancaster chegou a construir ruiu e o ex-cobiçado roteiro acabou nas mãos de Harold Hecht quando a sociedade com Lancaster foi desfeita. Somente em 1966 Harold Hecht conseguiu reunir o dinheiro necessário para produzir o sonhado épico, nada menos que cinco milhões de dólares, muito dinheiro naquele tempo. Novo roteiro foi concebido, desta vez de autoria de Ben Maddow (“O Segredo das Jóias” e “Johnny Guitar”), Andrew V. McLaglen, foi chamado para dirigir e o trio central foi formado por Kirk Douglas, Robert Mitchum e Richard Widmark.


Belíssima imagem da caravana rumo ao
Oregon; Kirk Douglas e Robert Mitchum.
A caminho do Oregon - Assim como outros autores renomados, A.B. Guthrie Jr. preferiu se afastar de Hollywood, ele que chegou a escrever os roteiros de “Os Brutos Também Amam” (Shane) e “Homem Até o Fim” (The Kentuckian), após o que se dedicou a completar os seis episódios de sua grande obra sobre a conquista do Oeste norte-americano. “The Way West”, o segundo livro da saga foi levado ao cinema depois de “Rio da Aventura” (The Big Sky), filme de Howard Hawks de 1952 estrelado por Kirk Douglas. No Brasil “The Way West” teve o título “Desbravando o Oeste”, sendo filmado inteiramente em locações, a maior parte no Oregon, com algumas poucas sequências bem mais amenas rodadas em Tucson, Arizona. Conta como um grupo de centenas de colonos parte, em abril de 1943, da cidade de Independence (Missouri) para tentar chegar pioneiramente uma espécie de terra prometida, no Oregon. Lidera a caravana o ex-Senador William J. Tadlock (Kirk Douglas), que contrata como guia o experiente Dick Summers (Robert Mitchum). Aos obstáculos naturais somam-se aqueles surgidos pelo convívio do não heterogêneo grupo e entre estes está Lije Evans (Richard Widmark) que cedo se indispõe com a forma autoritária e por vezes cruel de Tadlock conduzir a caravana. Após encontros com índios e inúmeras mortes, entre elas a do próprio Tadlock, os colonos chegam afinal ao seu objetivo, passando à história como verdadeiros desbravadores do Oeste.

Filme mutilado - Andrew V. McLaglen queixou-se em entrevista no ano 2003 que Harold Hecht e a United Artists cortaram 20 minutos iniciais de seu filme, prejudicando-o enormemente com isso. Pelo que se conhece dos 122 minutos de sua metragem original, qualquer acréscimo teria tornado “Desbravando o Oeste” ainda mais pesado. Tendo sido assistente de direção de William A. Wellman, Budd Boetticher e John Ford, McLaglen demonstra enorme competência nas difíceis sequências da infindável movimentação da caravana desde o Missouri até o Oregon. Porém, ao tratar dos conflitos humanos falta a McLaglen maior habilidade e o grandioso épico não produz a mínima emoção. Justo é dividir essa responsabilidade com os fracos diálogos de autoria de Ben Maddow e Mitch Lindemann, este produtor executivo que foi creditado como roteirista, sem falar em Kirk Douglas que, como de hábito, interferiu o quanto pode no trabalho do diretor com suas ‘sugestões’. Entre as muitas frases infelizes do roteiro temos esta do ex-Senador Tadlock que diz a Becky Evans (Lola Albright) na tentativa de conquistá-la: “Eu ressurgi como Sansão em sua cegueira...”. Não satisfeito Tadlock emenda: “Serei como uma torre para seu refúgio na nova cidade que construiremos”. À perplexa Becky só restou sair e correr para o marido Lije Evans, de quem não ouvirá clichês tão terríveis e o assédio do líder da caravana à mulher casada parou por aí mesmo em total inconsequência.
À direita alguns dos risíveis diálogos expressos por Kirk Douglas para Lola Albright.

Acima Michael Witney e Sally Field;
abaixo Katherine Justice entre Paul
Luthaker, Peggy Stewart e
Elizabeth Fraser.
Uma grande novela - Outra trama paralela é o envolvimento da atrevida jovem Mercy McBee (Sally Field) com Johnnie Mack (Michael Witney) homem casado com Amanda (Katherine Justice) uma mulher frígida e que o evita compulsivamente. O senhor Mack então cede à tentação que é possuir a jovem Mercy, engravidando-a e criando aquele que seria um enorme problema. Ocorre que Mack mata acidentalmente o filho de um chefe índio que providencialmente estava por perto disfarçado de lobo e cujo pai clama por vingança. Diante daquilo que parecia ser a reunião de todas as tribos de peles vermelhas no caminho do Oregon, Mack confessa o crime e é enforcado por Tadlock. Brownie Evans (Michael McGreevey) aceita se casar com Mercy e assumir a paternidade do filho bastardo que a moça gesta. Aduza-se a isso a emoção de, durante o casamento celebrado pelo pregador Weatherby (Jack Elam), ao ouvir o clássico ‘se alguém souber de algo contrário...’ a histérica viúva Amanda Mack denuncia a gravidez de Mercy. Têm-se a clara impressão de estar diante daquilo que os norte-americanos chamam de ‘soap-opera’, a nossa conhecida novelona de TV. Como a intenção era comover o espectador e dele arrancar lágrimas, o viúvo Tadlock ainda vê seu filho morrer num estouro de búfalos. Penitencia-se pedindo para ser chicoteado pelo negro Saunders (Roy Glenn) e diante de sequências trágicas como essas é que 122 minutos estão de bom tamanho para o filme de McLaglen.

Jack Elam; Lola Albright e Richard Widmark

Patric Knowles; Roy Barcroft
Pouco espaço para tantos coadjuvantes - Diálogos ruins e tramas ingênuas para não dizer banais, são compensadas com aquilo que “Desbravando o Oeste” tem de melhor que é mostrar com perfeição os rigores da longa jornada. Travessias de rio, de deserto e de cânion são esplendida e realisticamente capturadas pelas objetivas de William H. Clothier e é aí que Andrew V. McLaglen se supera e faz com que seu filme, apesar dos pesares, mereça ser visto. Os 20 minutos cortados da edição final de “Desbravando o Oeste” passam-se no encontro em Independence, ainda no Missouri, dos camponeses que almejam encontrar um dia a terra tão sonhada quanto distante. Portanto a penosa jornada está intacta e o que se perdeu foi uma melhor caracterização do enorme número de coadjuvantes que fazem parte da caravana e isso é realmente uma pena. Esmerou-se a produção em reunir um cast de qualidade que poucas oportunidades tem de mostrar seus talentos. Os irmãos Henry (Timothy Scott, Hal Lynch e John Mitchum) têm participação pequena, assim como Stubby Kaye, Roy Barcroft, Peggy Stewart, Nick Cravat, Roy Glenn e até mesmo Patric Knowles, o ‘Will Scarlett’ do Robin Hood de Errol Flynn que aparece quase num cameo. Sally Field, um tanto irritante, em sua estreia no cinema e a Lola Albright têm os principais papéis femininos. Nas poucas sequências em que aparece, Jack Elam comprova que era um especialista em roubar cenas.

Paul Luthaker, Peggy Stewart, Stubby Kaye e Elisabeth Fraser; à direita
Sally Field, Connie Sawyer e Lola Albright.

Mitchum, Widmark e depois Douglas - Algo que sempre foi bastante lembrado é Andrew V. McLaglen ter administrado bem as relações entre o trio central de atores. Embora nenhuma crise maior tenha sido noticiada, sabe-se que Kirk Douglas estava em fase de ego infladíssimo e tentou por todos os meios superar os demais com seu desempenho. Interpretando mais uma vez um tipo detestável (recentemente Douglas fez piada dizendo que viveu na tela tantos tipos sem caráter que estava pronto para interpretar... Donald Trump) Kirk se esmerou para compor o demagogo, visionário criador da ‘Oregon Liberty Company’. Para atingir seu intento o obcecado Senador William J. Tadlock  faz uso do que for necessário, mesmo de mentiras e seu passado não é muito claro sabendo-se apenas que seu comportamento teria levado sua esposa ao suicídio. Kirk monta, salta, luta, sofre e mesmo assim seu tipo ignominioso não supera Robert Mitchum esplêndido como sempre e apertando os olhos na briga particular contra a cegueira que acomete a visão do guia Dick Summers. E Douglas não fica nem com o segundo lugar de destaque pois este vai para Richard Widmark, igualmente excelente como sempre.


Fato histórico inspirador - A melhor explicação para o fracasso de “Desbravando o Oeste” talvez seja a própria concepção do filme. Destinado a ser mais um espetáculo edificante enaltecendo a inquebrantável coragem do povo norte-americano em seus projetos de construir uma grande nação, o filme de McLaglen tem como líder um homem desprezível. Além disso o dramalhão em que se transformam algumas situações, todas seguidas de mortes, conflitam com o escopo cinematográfico imaginado para a obra de A.B. Guthrie Jr. Como lembrou Jack Elam,  “Desbravando o Oeste” traz uma certa tristeza mesmo, especialmente pelos nomes importantes envolvidos e porque poderia ter sido o grande filme de Andrew V. McLaglen, um dos últimos diretores autênticos de westerns.



9 de dezembro de 2016

CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE KIRK DOUGLAS - 12 WESTERNS DO MAGNÍFICO ATOR


Kirk Douglas chega hoje, dia 9 de dezembro, ao seu centésimo aniversário, ele que foi um dos maiores astros de sua geração e que inscreveu com letras de ouro seu nome na cinematografia mundial. Esta postagem relembra os faroestes de Kirk Douglas resenhados no WESTERNCINEMANIA, homenagem a quem tantas emoções levou aos cinéfilos em geral e aos westernmaníacos em especial. 

18 de novembro de 2016

CONSCIÊNCIAS MORTAS (THE OX-BOW INCIDENT) - O MODESTO GRANDE WESTERN DE WILLIAM A. WELLMAN


Acima Walter Van Tilburg Clark e Lamar Trotti;
abaixo Darryl F. Zanuck e William A. Wellman
Publicado em 1940, o livro “The Ox-Bow Incident” de autoria de Walter Van Tilburg Clark chamou a atenção tanto de Henry Fonda quanto de William A. Wellman. Fonda era já um dos grandes astros de Hollywood e Wellman um cotadíssimo diretor depois do enorme sucesso de “Beau Geste” e outros filmes. Ambos pediram a Darryl F. Zanuck, então chefe de produção da 20th Century-Fox para comprar os direitos cinematográficos do livro para que Wellman dirigisse um filme nele baseado e tendo Fonda como ator. Percebendo que o potencial para atrair público daquela história era praticamente zero, Zanuck chantageou tanto Fonda como Wellman. A Fox produziria o western, desde que eles recebessem por escala, ou seja, aceitassem os salários-base do estúdio e ainda se comprometessem a participar de dois projetos comerciais do produtor. Além disso Zanuck avisou que “The Ox-Bow Incident” deveria ser rodado em 18 dias, inteiramente dentro do estúdio que possuía uma pequena cidade western vista em dezenas de filmes e sem nenhum outro grande nome no elenco para evitar maiores despesas. A única concessão feita por Zanuck  foi entregar a Lamar Trotti, um dos principais roteiristas de Hollywood, a incumbência de escrever o roteiro. Zanuck acertou em cheio em suas previsões pois “The Ox-Bow Incident” (“Consciências Mortas” no Brasil), com duração de meros 75 minutos, não conseguiu atrair o público, mas cedo ganhou o status de pequena obra-prima não só do gênero, mas do cinema norte-americano.


Acima Hank Bell e Frank Conroy ladeando
Anthony Quinn e Danna Andrews; abaixo
Quinn com Jane Darwell e outros.
Noite de terror - Os cowboys Gil Carter (Henry Fonda) e Art Croft (Harry Morgan) retornam a Bridger’s Wells em 1885 após algum tempo fora e se deparam com a cidade agitada pela notícia de um assassinato seguido de roubo de gado. Com o xerife ausente, seu assistente reúne de imediato um grupo formado pelos moradores, a maior parte deles disposta a fazer justiça enforcando o assassino. Lidera o grupo o Major Tetley (Frank Conroy), que se diz ex-oficial Confederado e que retira do armário uma farda para garbosamente comandar a turba. Na primeira noite de busca encontram três homens acampados e dormindo ao redor de uma fogueira. São eles o rancheiro Donald Martin (Dana Andrews), o mexicano Juan Martinez (Anthony Quinn) e o velho ‘Dad’ Hardwick (Francis Ford). Acusados de serem os assassinos mesmo sem evidências concretas e negando o crime, o trio é condenado por um júri formado pela maior parte do grupo que quer enforcá-los. Os três são sumariamente enforcados após o que surge o xerife informando que o homem supostamente assassinado está vivo e que, portanto, o grupo havia linchado três inocentes.

Anthony Quinn; Paul Hurst
Dominados pela fúria - Em diversas ocasiões Henry Fonda afirmou que, de sua longa filmografia, dois eram os filmes que mais gostava: “Consciências Mortas” e “Doze Homens e Uma Sentença”. Este segundo, realizado 14 anos depois, em 1957, tem pontos de semelhança com o western de William A. Wellman pois ambos tratam da irracionalidade que domina os homens diante da possibilidade de uma execução, mesmo que não haja certeza dos fatos. Pior ainda no caso de “Consciências Mortas” em que sequer ocorreu o suposto assassinato que motivou a barbárie. Este é um filme psicologicamente tenso, sem nenhuma sequência de ação, exceto uma rápida troca de socos entre cowboys logo no início. Um sombrio e perturbador estudo do comportamento de grupos que reagem com histeria diante de acusados aos quais não é dado o mínimo direito de defesa. Homens dominados pela fúria comum em grupos que se deixam levar pelo desvario desconsiderando a razão e a consequência de seus atos. Passado no Velho Oeste, o acontecimento e a tensão instalada no lugarejo não raro ocorre em pequenos e grandes centros em tempos menos remotos.

Frank Conroy; Marc Lawrence
Confederado reprimido - Entre todas as personagens de “Consciências Mortas” destaca-se a do ex-oficial Confederado que vê se apresentar a oportunidade de mostrar que, com mais homens como ele, o resultado da Guerra Civil ocorrida duas décadas antes seria outro. Pomposo, arrogante, autoritário, elege-se naturalmente como o líder tanto dos sedentos vingadores como daqueles que se conformam em ficar ao lado dos mais fortes, no caso a turba desatinada. Gil Carter chega a dizer que Tetley sequer teria lutado. Esconde-se por trás desse homem o nunca superado abatimento pela derrota, sentimento reprimido e que irrompe quando a ocasião se apresenta. Para seu desespero seu próprio filho não comunga de seu comportamento perturbado e, humilhado pelo pai, reluta a obedecê-lo. Sete são os homens que não perdem a lucidez diante da excitação da turba e reagem opondo-se ao linchamento, entre eles um negro que profere orações em forma de música, contraponto ao opressivo sulista fardado. E o racismo se manifesta também quando Jeff Farnley (Marc Lawrence) pede para chicotear o cavalo do mexicano (Anthony Quinn) e com ódio no olhar diz: “O mexicano é meu!”.

Henry Fonda
A opção de Henry Fonda - Conhecido por suas atuações que, mesmo contidas, atingem uma pungência incomum, Henry Fonda dá uma demonstração de como um ator talentoso como ele pode prescindir de seus direitos de astro. O personagem de Fonda é apenas mais um entre os tantos que se agrupam na busca dos criminosos que não existem. Embora seu drama pessoal seja abordado - foi trocado pela amada por outro homem - isto em nada altera sua atitude na história e mesmo sua participação vai pouco a pouco sendo reduzida à medida que a tensão se eleva. Somente ao final, lendo a carta escrita para a esposa por um dos executados, é que Fonda se destaca lembrando a angústia de Tom Joad em “Vinhas da Ira”, este sim, um extraordinário momento do ator. O humanismo de Fonda é tão imenso quanto seu talento, isto num meio em que se briga por closes por segundos a mais ou a menos na tela e por salários cada vez maiores. Fonda sabia que naqueles tempos de guerra o público norte-americano queria ver seus astros matando alemães ou se envolvendo em dramas românticos em lugares exóticos como Casablanca. Mais importante para Henry Fonda (e William A. Wellman também) era levar o público à reflexão com uma história como a de “Ox-Bow Incident”, infelizmente um dos poucos westerns rodados naqueles anos.

Acima Harry Davenport e Leigh Whipper;
os sete homens contra o linchamento. 
Excelente time de coadjuvantes - Western conciso, com diálogos sucintos diretos e eficientes, "Consciências Mortas" prescinde apenas da presença desnecessária de Mary Beth Hughes que interpreta numa rápida sequência a mulher que Gil Carter (Fonda) amava. Mary Beth foi uma aposta da Fox que não se confirmou como grande estrela. Para compensar, este western reúne um notável e numeroso elenco de apoio e William A. Wellman consegue que cada um deles tenha relevância mesmo com as poucas falas individuais, suficientes para caracterizar cada personagem. Destaque maior para Harry Davenport e Leigh Whipper entre os menos conhecidos. Harry Morgan limita-se a dividir com Fonda a tristeza diante da covardia e histeria coletiva. Dana Andrews a caminho do estrelato tem os melhores momentos dramáticos como o infeliz rancheiro que vive o aterrorizante drama. Anthony Quinn como o desafiador mexicano já dava mostras de seu enorme talento que faria dele, em curto espaço de tempo, um dos maiores atores do cinema. Atenção para a presença de Rondo Hatton, ator acometido por acromegalia e que viria a falecer poucos anos depois deste trabalho, em 1946.

Frank Conroy, Chris-Pin Martin, Anthony Quinn e Marc Lawrence;
à direita Dana Andrews.

Excepcional faroeste - Magnífico trabalho de iluminação criando a atmosfera precisa nas apavorantes sequências de enforcamento, a cinematografia de Arthur C. Miller é um dos pontos altos de “Consciências Mortas”, além da ótima música incidental de Cyril J. Mockridge. Mais até que o tema principal do filme, assunto poucas vezes focalizado por Hollywood, a virtude maior deste western de William A. Wellman reside em exemplarmente demonstrar que excepcionais filmes não se fundamentam necessariamente em produções dispendiosas. Certa vez Orson Welles declarou que esta era a película que mais admirava e Clint Eastwood afirmou que em sua adolescência este foi o faroeste que mais o fascinou. Mesmo tendo produção de western B, “Consciências Mortas” concorreu ao Oscar de Melhor Filme na premiação de 1944, perdendo para “Casablanca”; ganhou porém o então importante prêmio do National Board Review como Melhor Filme do Ano e ainda ficou com o segundo lugar na escolha do New York Film Critics Circle Awards em 1943. Um dos melhores filmes do gênero, “Consciências Mortas” nunca deixou de ser uma lição de coragem, humildade e talento de seu diretor, bem como de Henry Fonda.


5 de novembro de 2016

EU MATEI JESSE JAMES (I SHOT JESSE JAMES) – O DRAMA PESSOAL DE ROBERT FORD


Samuel Fuller
Trabalhando com pequenos orçamentos no início de carreira, Samuel Fuller construiu uma invejável reputação como diretor e como roteirista de seus filmes. Ganhando a confiança dos produtores, Fuller realizou mais tarde o admirado “Dragões da Violência” (Forty Guns) e o superestimado “Renegando Meu Sangue” (Run of the Arrow), ambos de 1957. Do que Samuel Fuller nunca abriu mão foi de criar alguma polêmica com seus filmes e isso pode ser comprovado já em sua estreia como diretor, em 1949, quando dirigiu “Eu Matei Jesse James” (I Shot Jesse James). Tendo assinado contrato com a produtora de Robert L. Lippert para dirigir três filmes (todos por ele próprio roteirizados), Fuller em apenas dez dias de filmagens e com elenco e técnicos que o orçamento podia pagar entregou este western que se interessa menos por Jesse James e mais por aquele que passou para a história como seu ‘covarde assassino’.


Barbara Britton com John Ireland (acima)
e com Preston Foster.
Tudo por uma mulher - Após um frustrado assalto comandando sua quadrilha, Jesse James (Reed Hadley) reassume sua vida disfarçado como o pacato Tom Howard, homem casado e pai de filho que vive em St. Joseph, no Missouri. Abrigam-se na casa de James seu irmão Frank (Tom Tyler) e os irmãos Ford - Robert (John Ireland) e Charles (Tommy Noonan) - seus amigos. Robert Ford pretende se casar com a atriz Cinthy (Barbara Britton) e vê na recompensa de 10 mil dólares estipulada pela captura ou morte de Jesse James a possibilidade do matrimônio e início de uma vida honesta. Mais ainda depois de o governador declarar anistia a todos os bandidos, menos aos irmãos James. Robert Ford executa Jesse James mas não obtém a recompensa esperada e sim adquire a fama de covarde, o que faz com que Cinthy repense a ideia de se casar com ele. Surge então Kelley (Preston Foster) que também se interessa por Cinthy. Robert enriquece descobrindo prata em Creede, no Colorado, ao mesmo tempo que perde Cinthy para Kelley. Os dois homens duelam em frente ao saloon Silver King e Robert Ford é morto.

Reed Hadley
Insólita narrativa - No início de “Eu Matei Jesse James” um letreiro informa sobre as liberdades que o roteiro de Samuel Fuller tomou com os fatos históricos envolvendo Robert Ford. A partir daí pode-se esperar por qualquer coisa e Fuller não deixa por menos surpreendendo com sua insólita narrativa. Esqueça-se a lembrança do formoso Jesse James de Tyrone Power pois o lendário bandido agora interpretado por Reed Hadley está mais para Abraham Lincoln, faltando apenas a cartola para completar o personagem. E este Jesse James nunca se cansa de praticamente pedir para ser alvejado pelas costas por seu amigo Robert Ford, mesmo após ter discutido com este as vantagens desse assassinato. Fuller transforma seu western num melodrama ao trazer para a história um certo Kelley que viria a formar um triângulo amoroso entre Robert Ford e sua amada Cinthy. Porém antes desse bem declarado triângulo, houve outro sugerido pelo provocador Fuller.


Reed Hadley e John Ireland
‘Eu matei quem eu amava’ - Se a consciência de Bob Ford não permitiu que ele tivesse um minuto de paz após seu ato covarde, não é menos verdade, ao menos neste “Eu Matei Jesse James”, que seu coração também esteve dividido entre a namorada e seu chefe, o esposo de Zee James (Barbara Woodell). Após o malogrado assalto a banco no início do filme, Jesse procura cuidar do ferimento de Robert Ford, um tiro que trespassa o ombro e do qual não se vê sangue pela pobreza da produção. Pressentindo perigo, Zee pede para o marido se afastar dos irmãos Ford, mas ao invés disso é Bob Ford quem esquenta e traz água e ajuda Jesse James durante o banho deste. É quando Jesse entrega um reluzente Colt 45 para o amigo avisando que a arma é linda e tem um cabo moderno. O mesmo John Ireland viveu cena parecida com Montgomery Clift em “Rio Vermelho” quando ambos trocaram e admiraram mutuamente seus revólveres com evidente simbolismo. Enquanto Bob Ford acaricia o revólver, Jesse James oferece suas costas para o amigo esfregar. E Jesse observa que “quando dou um presente, dou completamente”. A tentação é grande e afinal Ford assassina o amigo, ficando com a indesejável fama que acaba por lhe dificultar o casamento com Cinthy. Após cansativas idas e vindas com portas que nunca se cansam de abrir para compor o triângulo Kelley-Cinthy-Bob Ford, eis que o ‘covarde assassino’ é finalmente morto por Kelley (O’Kelley na história real e não na rua, mas dentro do saloon e com um tiro no pescoço). Antes de morrer nos braços de Cinthy, Bob Ford confessa à perplexa moça que “amava Jesse James”. Samuel Fuller em seu estado mais puro.

Barbara Britton e John Ireland

John Ireland; Preston Foster
Participações pouco interessadas - Este singular western poderia funcionar bem, não fosse o roteiro pouco claro, desconexo mesmo em alguns diálogos e que compromete toda a criativa versão do delirante Fuller. Some-se a isso a não disfarçada pobreza da produção, isto quando se sabe que o que faz a glória de cineastas como Samuel Fuller, Edgar D. Ulmer e Phil Karlson, entre outros, é a capacidade de superar com criatividade a falta de recursos. Há em “Eu Matei Jesse James” um excesso de planos fixos o que dá ao filme uma estaticidade que os muitos e prolongados close-ups pouco ajudam. Sem falar que, por estarem participando de um filme de diretor estreante e certamente por estarem recebendo ínfimos salários por suas participações, Preston Foster e John Ireland não dissimulam a má vontade. Foster vivia o declínio de sua carreira e Ireland, que no ano anterior se destacara no clássico “Rio Vermelho” (Red River), interpretaria em 1949 o repórter de “A Grande Ilusão”, atuação que lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

Tom Tyler
Três momentos bilhantes - Em se tratando de Samuel Fuller, felizes imprevistos são perfeitamente previsíveis e eis que o diretor nos dá três grandes momentos neste pequeno faroeste. O primeiro é quando Bob Ford está em cena revivendo num teatro o já famoso assassinato e seu remorso o impede de repetir seu ato fatal, mesmo que numa encenação. Em seguida há a sequência em que um trovador (Robin Short) canta, diante de Bob Ford a balada que fala do assassinato de Jesse James, momento brilhante pelas excepcionais participações do cantor e também de John Ireland, aqui num raro momento de maior comprometimento com o filme. E outra sequência marcante e própria do diretor é quando Bob Ford aparentemente atira em direção ao velho garimpeiro Soapy (Victor Kilian), dando a impressão de tê-lo matado e na sequência seguinte é dito que Ford atirara num puma que estava atrás de Soapy e não no minerador. Três belos momentos, dignos da fama de Fuller, que não conseguem sustentar um roteiro inconsistente.

Robin Short; Victor Kiliam

John Ireland
O incansável John Ireland - Creditado em primeiro lugar nos letreiros, Preston Foster faz o que se espera dele com sua presença forte. John Ireland era então, aos 35 anos, um dos mais fortes candidatos à condição de astro em Hollywood, com excelentes participações especialmente em policiais noir onde se sentia bem à vontade. Entre 1948 e 1949 Ireland participou de nada menos que 13 filmes, sempre em papeis relevantes. No entanto Ireland não atingiu o estrelato como, por exemplo, seus contemporâneos Kirk Douglas e Burt Lancaster. A linda Barbara Britton é do trio principal quem parece levar este western a sério. No elenco ainda o conhecido Victor Kiliam e Tom Tyler e Reed Hadley, ambos astros de seriados da Republic Pictures. Robin Short, que interpreta “A Balada de Jesse James” era um cantor de folksongs que se acompanha ao violão, exatamente como é mostrado neste western. Curioso que Jesse James ficaria marcado no cinema pela imagem de Tyrone Power, mesmo após tantos e tantos filmes (e seriados) sobre o bandido. E não foi desta vez que a lenda sobre Jesse foi desfeita, mesmo sob o enfoque de um diretor abusado como Samuel Fuller.


A cena real do assassinato, com John Ireland e Reed Hadley.

O assassinato encenado em um teatro, com John Ireland (Bob Ford) e um ator