UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

11 de abril de 2017

REGIÃO DO ÓDIO (THE FAR COUNTRY) – OUTRO GRANDE WESTERN DE ANTHONY MANN


Borden Chase era um pouco notado roteirista de histórias policiais e aventuras até que escreveu o roteiro de “Rio Vermelho” (Red River), a partir de uma história sua. Antes havia escrito, no gênero western, apenas “No Velho Colorado” (The Man from Colorado”. Pouco depois Chase roteirizou “Winchester 73”, cuja história original é de Stuart N. Lake, sendo então chamado para escrever sucessivamente os roteiros de “Montana, Terra Proibida” (Montana), “E o Sangue Semeou a Terra” (Bend of the River) e “Estrela do Destino” (Lone Star). Tomando gosto pelo gênero, Chase escreveu as histórias originais de “Região do Ódio” e “Vera Cruz”, consagrando-se como um dos principais escritores de westerns. Viriam ainda os roteiros de “Homem Sem Rumo” (Man Without a Star) e “Punido pelo Próprio Sangue” (Backlash) que confirmariam a reputação de Borden Chase. Anthony Mann havia trabalhado com Chase duas vezes e em 1954 retomou a parceria com James Stewart para um novo western com história e roteiro do escritor. James Stewart relutou um pouco pois havia feito quatro westerns praticamente em seguida, três deles dirigidos por Mann, sendo que “O Preço de um Homem” (The Naked Spur” não havia ido bem nas bilheterias. Mas como recusar atuar em um faroeste escrito por Borden Chase e, mais ainda, dirigido pelo amigo Anthony Mann. O resultado foi mais um excelente western.
Nas fotos ao lado Borden Chase (acima) e Anthony Mann


James Stewart
Um homem do Oeste no Canadá - Jeff Webster (James Stewart) é um cowboy que leva seu gado do Wyoming até Seattle, tencionando embarcar o rebanho para o Canadá, passando por Skagway. Na trajetória, ainda em terras norte-americanas, houve um motim e Webster se viu obrigado a matar dois cowboys que se rebelaram contra ele e que queriam se apossar do rebanho. Webster viaja com o amigo Ben Tatum (Walter Brennan) e na embarcação conhece Ronda Castle (Ruth Roman), mulher de negócios que se interessa por ele para trabalharem juntos. Webster recusa e quando chega a Skagway reencontra Ronda e tem uma altercação com Gannon (John McIntire), espécie de delegado local e que impõe a lei segundo sua vontade. Gannon indicia Webster e faz um julgamento sumário anistiando-o do enforcamento mas confiscando todo seu rebanho. Webster recupera o rebanho e segue para Dawson, no Canadá, para onde também vão Ronda e mais tarde Gannon e seus capangas. Gannon quer fazer em Dawson o mesmo que fazia em Skagway mas Webster o enfrenta matando-o, bem como a seus homens. Antes Gannon alveja Ronda mortalmente e Webster termina na companhia de Rennè Vallon (Corinne Calvet), moça que também se interessa por ele.

Ruth Roman
Outro personagem complexo - Anthony Mann foi o grande responsável pela descoberta da capacidade até então desconhecida de James Stewart interpretar tipos neuróticos, insensíveis, atormentados pelo passado e capazes até de matar. James, ao lado de Gary Cooper, formava a dupla de atores que melhor personificavam o americano íntegro e foi uma surpresa vê-lo, pelas mãos de Anthony Mann interpretar um personagem raivoso e violento como em "Winchester 73". Em "O Preço de um Homem" Stewart levou seus fãs ao paroxismo desempenhando um ser obececado e brutal que pode ser chamado de tudo, menos de herói. Para este quarto western sob a direção de Anthony Mann o personagem Jeff Webster, interpretado por Stewart está a milhas de distância dos tipos que ele criou nos filmes de Frank Capra. Webster é procurado por assassinato por ter matado dois cowboys empregados que, segundo ele, pretendiam roubar seu gado. Webster é um individualista que pensa duas vezes antes de ajudar alguém, a ponto de a jovem Rennè Vallon lhe dizer que o mundo seria muito ruim se todos fossem iguais a ele, um homem que se recusa até a dizer um simples 'obrigado'. "Não costumo agradecer", diz ele à bela e sedutora Ronda Castle, que como agradecimento queria mesmo que ele a possuísse. Mas qual... Entre outras características de Jeff Webster está ser ele uma espécie de misógino que resiste ao assédio de Rennè assim como resistiu até onde pode às intenções nada dissimuladas de Ronda. Sucumbiu somente quando descobriu que Ronda é, assim como ele, desprovida de alguns princípios básicos de integridade. Ronda monta o Dawson Castle, um saloon onde pretende como fez anteriormente, vender bebida falsificada e enganar garimpeiros com mulheres. Se os opostos se atraem, Em “Região do Ódio” o que fez Webster gostar de Ronda foi sua índole e seu gênio difícil e não suas possíveis qualidades.

John McIntire
Tipos amorais - Qualidades é o que Gannon não faz nenhuma questão de ter. Torpe, traiçoeiro, ganancioso e autoritário, ele faz as leis em Skagway, e quando contestado diz "Esta é a minha lei" e segundo ela confisca propriedades dos mineradores acovardados e até o gado de Webster, que Gannon sabe ser de estirpe diferente. Assim como Webster acaba por gostar de Ronda, Gannon também tem simpatia por Webster, convidando-o para ser seu homem forte. E repetidas vezes lembra que terá que matá-lo, ainda que goste dele. Roubar concessões é algo que Gannon faz com sádico prazer e diverte-se vendo o pistoleiro Burt Madden (Robert J. Wilke) amedrontar e matar quem lhe faz alguma objeção. Esses tipos desprezíveis e que agem perversamente (mesmo Webster) não perdem nenhuma oportunidade para destilar ironia, o que dá um tom de comédia ao filme, algo incomum nos westerns de Anthony Mann. Mas nem Gannon, Webster, Ronda ou Madden são exatamente engraçados e sim amorais. Escolhido para ser delegado em Dawson, Webster recusa e diz: “Lei e ordem custam vidas. Alguém sempre morre e eu não vim a Dawson para morrer”. Mais egoísta impossível e esse é o anti-herói de Anthony Mann e Borden Chase.

Walter Brennan
Sininho irritante - A filosofia de Jeff Webster é não confiar em ninguém pois essa é uma forma de não vir a sofrer decepções. Paradoxal, no entanto, é a ambígua relação dele com seu companheiro de trabalho Ben Tatum, velho que sonha em ter um rancho onde possa acabar seus dias ao lado de Webster. E não faltará à porta da casa o sininho para avisar quando alguém chega para tomar café com eles. Quando Webster tranquiliza Ben dizendo-lhe que cuidará dele, tem como resposta: “Aposto que vai cuidar”. Essa idílica amizade é rompida quando Madden, que se confessa irritado por ouvir o sininho no cavalo de Webster, mata o velho Ben. E o frio pistoleiro mata também o cansado Dusty (Chubby Johnson) quando este o enfrenta sem intenção de duelar. Madden sarcasticamente diz que não é adivinho e como saber que Dusty não atiraria nele... Ao não enfrentar Madden, o insensível Webster ouve de Rube (Jay C. Flippen): “Não esperava isso de você”. O ponto de partida para a repentina mudança de Webster foi a morte do amigo Ben, mudança que o leva a decidir, quase suicidamente pois está ferido, se defrontar com Gannon, Madden e Newberry (Jack Elam).

Na foto à esquerda Ruth Roman, John McIntire, Robert J. Wilke e Jack Elam;
na outra foto Walter Brennan, Jay C. Flippen, John McIntire e James Stewart.

Cenário imponente - O rico roteiro de Borden Chase, ainda que a trama central oponha o eterno mal contra o bem de tantos faroestes, tem personagens centrais bastante significativos, como visto acima. Destoa apenas a presença da jovem Rennè, formando um triângulo amoroso que só tem razão de ser para o final feliz de uma história onde quase todos são farsantes, dissimulados e cruéis. Muitos pontos em comum com “Jogos e Trapaças / Quando os Homens São Homens” (McCabbe & Mrs. Miller) de Robert Altman não deixam dúvida quanto à influência de “Região do Ódio”. E Mann, o diretor dos grandes espaços desta vez filmou sob as rochosas canadenses, em Jasper e também em Alberta, cenários imponentes e magnificamente fotografados por William H. Daniels. A música é um pastiche de temas compostos por quatro compositores, um deles Henry Mancini quando ainda não via seu nome os créditos. Ótimo trabalho da direção de arte na reconstituição das pequenas cidades de Skagway e Dawson.

John McIntire
John McIntire brilha como vilão - James Stewart mais uma vez está perfeito, ainda que nada engraçado como o roteiro exigia. Walter Brennan, um tanto cansativo, repete o tipo criado em “Rio Vermelho” mostrado muitas vezes com algumas variações e eternizado com o ‘Stumpy’ em “Rio Bravo” (Onde Começa o Inferno). É John McIntire como o vilão principal quem domina o filme, algo normal nos westerns de Anthony Mann, nos quais o vilão sempre se sobressai. Ruth Roman poderia sorrir menos e ser ainda mais má complementando sua sensualidade e beleza. Robert J. Wilke, com um pequeno bigode, comprova que foi um dos grandes bandidos dos westerns. Verdadeiramente uma pena que Jack Elam, Royal Dano, Kathleen Freeman, John Doucette e Chubby Johnson tenham sido tão pouco aproveitados, eles que eram do primeiríssimo time de coadjuvantes de Hollywood. Além deles há um timaço de característicos liderado por Eddy Waller e até com Chuck Roberson com duas imensas cicatrizes no rosto.

Grande trabalho de um grande diretor - Anthony Mann e James Stewart formaram uma das mais profícuas parcerias ator-diretor de Hollywood, com destaque para os cinco westerns que filmaram juntos. Cada cinéfilo tem o seu faroeste preferido nessa magnífica quina e raramente “Região do Ódio” é citado como o melhor entre os cinco justamente por ser ligeiramente inferior aos demais. O que não significa que não seja um excelente western capaz de refulgir na filmografia de qualquer diretor do gênero. Os anti-heróis dos westerns spaghetti certamente foram muito influenciados pelo cínico e individualista Jeff Webster de James Stewart. Na foto ao lado pose de James Stewart e Ruth Roman para publicidade.

Walter Brennan e James Stewart na foto em cores; Harry Morgan, Jay C, Flippen,
Ruth Roman, James Stewart, Corinne Calvet, Walter Brennan e John McIntire
em foto num intervalo das filmagens no Canadá.



29 de março de 2017

JOGOS E TRAPAÇAS / ONDE OS HOMENS SÃO HOMENS (McCABE & MRS. MILER) – O INSÓLITO WESTERN DE ROBERT ALTMAN


Robert Altman; abaixo Altman
com Beatty e Vilmos Zsigmond.
Com “M.A.S.H”, seu terceiro longa-metragem, Robert Altman alcançou enorme sucesso e chamou a atenção da crítica para seu talento confirmado mais tarde com “Nashville”. Antes disso Altman passara 15 anos dirigindo séries para a televisão, entre elas “Bonanza”, “Maverick”, “Bronco”, “Sugarfoot” e outras séries westerns. Não foi, portanto, novidade para o incansável diretor nascido em Kansas City realizar faroestes, filmando o cultuado “Jogos e Trapaças / Quando um Homem é Homem” em 1971 e o massacrado pela crítica “Oeste Selvagem” (Buffalo Bill and the Indians) em 1975. Novidade mesmo foi surgir um western insólito como “Jogos e Trapaças / Quando um Homem é Homem”, diferente na trama, na concepção e especialmente na ambientação. A história original, de autoria de Edmund Naughton foi escrita em 1959 e transformada em roteiro por Brian McKay em parceria com o próprio Altman. O produtor David Foster levou a numerosa equipe para British Columbia, no Canadá, onde havia as perfeitas condições climáticas para satisfazer o exigente diretor. Para capturar as imagens foi chamado o cinegrafista húngaro Vilmos Zsigmond, o mesmo do belo e incomum “Pistoleiro Sem Destino” (The Hired Gun), também de 1971. A música para o filme era um problema a resolver e foi solucionado após Altman conhecer e ficar impressionado com o álbum “The Songs of Leonard Cohen”. O compositor canadense cedeu as três canções que ele mesmo canta e que serviram como leitmotiv para o filme.


Warren Beatty
Um empreendedor chamado McCabe - Um povoado chamado Presbyterian Church floresce numa inóspita região mineiradora de Washington, no Noroeste norte-americano, onde chega Jack McCabe (Warren Beatty). É lá que McCabe vê a possibilidade de ganhar dinheiro com um saloon e consequentemente com bebida e prostituição. Respeitado por supostamente haver matado um famoso pistoleiro, McCabe vê seu negócio prosperar com a chegada de meretrizes vindas de Seattle, e com a parceria feita com a cortesã Constance Miller (Julie Christie). Tudo corre bem com o crescimento de Presbyterian Church até que uma empresa interessada em explorar zinco decide comprar as propriedades de McCabe. Este estima um valor acima do razoável e os emissários da corporação resolvem fazer uso do poder de persuasão do pistoleiro Butler (Jack Millais) que chega à cidade acompanhado de dois capangas. Inicialmente intimidado, McCabe opta por enfrentar os três homens num desfecho brutal para todos.

Warren Beatty
Faroeste sombrio e triste - Diferentemente de seu estilo habitual de cruzar diversas histórias, numerosos personagens e diálogos abundantes, “Jogos e Trapaças” tem uma narrativa simples que deságua no confronto do capitalismo poderoso contra um pequeno e arrojado homem de negócios. Nesse pano de fundo Robert Altman concebeu um western incomum com visual e atmosfera jamais vistos no gênero. Certo que André de Toth já havia realizado em 1959 “Quadrilha Maldita” (Day of the Outlaw) um brilhante faroeste transcorrido inteiramente em região de nevascas. E não custa lembrar que Sergio Corbucci nos deu o admirável “O Vingador Silencioso” (Il Grande Silenzio), em 1968, inesquecível igualmente por suas sequências desenroladas na neve. Improvável que Altman tivesse visto o western de Corbucci com o qual guarda similitudes e, mais que esses dois filmes citados, realizou um assustador, sombrio e triste faroeste. Desde os créditos iniciais a voz monocórdia de Leonard Cohen indica a melancolia que permeará a desventura de McCabe associado à menos trágica mas igualmente infeliz Mrs. Miller.

Julie Christie
Fraqueza mal disfarçada - Esconde-se sob a aparência de um homem carismático, resoluto e destemido que Jack McCabe inicialmente passa, um farsante que somente não engana a experiente Mrs. Miller. Percebe ela que seu sócio sequer domina os números da contabilidade do dinheiro que o bordel ‘House of Fortune’ arrecada. O fanfarrão que parece ainda maior vestido com sua enorme pele de urso se impõe com facilidade aos homens simples que vivem em Presbyterian Church e que se apequena diante da cortesã que descobre amar. Tão néscio é McCabe que mal suspeita ser a linda madame viciada em ópio. Pouco se importando em melhor desenvolver os personagens, Altman perde uma excelente oportunidade de criar uma das mulheres mais fascinantes de todos os westerns. Nada se sabe de Mrs. Miller, além de sua capacidade de bem administrar o prostíbulo e da fraqueza de se entregar ao vício que esconde do amante. Após exercitar sua fanfarronice o desajeitado McCabe se mostra frio diante de um jovem cowboy (Keith Carradine) que imagina ter vindo por ordem dos interessados em comprar sua mina. Diante, porém, de Butler, o verdadeiro pistoleiro, McCabe se aterroriza instantaneamente pois sabe que está diante da morte.

Warren Beatty; no centro Jace Van
Der Veen; abaixo Manfred Schulz
Atirando pelas costas - Intitulado em seu lançamento nos cinemas no Brasil como “Jogos e Trapaças”, quando de sua edição em DVD teve o título alterado para “Quando os Homens são Homens”, muito mais adequado para um western, na linha de ‘Os Brutos Também Amam’. Menos ruins esses títulos que o recebido pelo western de Altman em Portugal, onde foi chamado “A Noite Fez-se para Amar”. Mas afinal, quando os homens são homens? Um personagem que surge como advogado, e que almeja ser um novo Abraham Lincoln, inconvincentemente convence McCabe com a ideia que nunca se atingirá a liberdade ou se fará justiça sem o sacrifício de alguns, frase que o apalermado McCabe repete para Mrs. Miller antes de decidir partir para o suicídio que é enfrentar Butler e seus dois capangas. Num filme que não se preocupa em ser claro, a determinação do jogador soa estranha e injustificada mas é suficiente para criar um arrebatador e realista momento de ação. É quando ainda mais o iconoclasta Altman desmantela a imagem de um herói. McCabe primeiro se defronta com o presunçoso jovem pistoleiro chamado Kid (Manfred Schulz) reedição do personagem ‘Eddie’ criado Richard Jaeckel em “O Matador” (The Gunfighter) e pelo próprio Jaeckel revivido em outros westerns. O inepto McCabe acerta Kid pelas costas e mesmo assim é atingido por ele na perna e na barriga. Arrastando-se com as forças que lhe restam McCabe mata também pelas costas o segundo pistoleiro e Altman sacramenta o revisionismo do Velho Oeste que seu filme do começo ao fim estampa. O confronto final mostra que mesmo um frio e experiente pistoleiro de aluguel como Butler não escapa de ser abatido por alguém inábil como McCabe que baleado por três vezes ainda saca uma Deringer e acerta o oponente ‘right between the eyes’ como disse antes de morrer Liberty Valance.

Hugh Mallais

Acima Presbyterian Church; no centro Keith
Carradine;abaixo Carradine no bordel.
A poética câmara de Zsigmond - Mesmo nos filmes menos bem sucedidos de Altman jamais faltam diálogos interessantes na fartura de tipos que ele cria. Em “Jogos e Trapaças” não são os diálogos sarcásticos que chamam a atenção num filme cuja primeira metade transcorre tão modorrentamente quanto era a vida em Presbyterian Church. A notável Direção de arte (Al Locatelli-Philip Thomas) e a fotografia de Vilmos Zsigmond impressionam mais que tudo, somados à desolação produzida pela música de Leonard Cohen. Vale dizer que as canções de Cohen “The Stranger Song”, “Sisters of Mercy” e “Winter Lady” existiam antes do filme de Altman, coincidindo muitos de seus versos com as imagens e situações de “Jogos e Trapaças”. Não há música incidental de estúdio, exceto o uso de violino e flauta tocados por personagens e as canções de Cohen desdobradas singelamente por um violão. E se faltam diálogos característicos dos filmes de Altman sobram chuva, neve, nebulosidade, lama que a câmara de Zsigmond transforma em poesia. Uma pena que para isso o cinegrafista húngaro tenha utilizado excessivamente a técnica de granulação das imagens para torná-las brumosas, esfumaçadas e sombrias. Houve muitas queixas quanto á qualidade do áudio deste filme, a ponto de tornar alguns diálogos incompreensíveis, fenômeno comum no cinema nacional. O bem legendado DVD favorece a inteira compreensão e mais ainda, o que é inusitado, todos os versos cantados por Leonard Cohen são legendados, para sorte nossa.

Hugh Mallais
Antônio das Mortes na neve - Warren Beatty era um dos mais destacados nomes de Hollywood após o êxito de “Bonnie & Clyde”, mesmo com seus limitados recursos interpretativos. Sem brilhar, Beatty compõe bem McCabe, especialmente quando o cinismo que Beatty naturalmente expressa se faz necessário. Indicada para o Oscar de Melhor Atriz, Julie Christie tem atuação pouco expressiva, ela que o mundo aprendera a admirar como a Lara de “Dr. Jivago” e mais ainda em filmes como “Darling” e “Farenheit 451”. Julie e Warren Beatty viviam juntos quando da produção de “Jogos e Trapaças”. Destacam-se ainda Keith Carradine em sua estreia no cinema e Hugh Millais, este responsável pelo grande momento do filme quando um memorável diálogo reduz McCabe à sua pequenez moral diante dos, até então, seus admiradores de Presbyterian Church. Incrível como o pistoleiro criado por Hugh Millais lembra nosso Maurício do Vale como ‘Antônio das Mortes’ dos filmes de Glauber Rocha.

Julie Christie

Robert Altman; Warren Beatty
Prestígio crescente - Mesmo com os nomes de Warren Beatty e Julie Christie encabeçando o elenco, “Jogos e Trapaças” não despertou a atenção do grande público, ainda que não tenha se constituído em fracasso comercial como a maioria dos filmes de Robert Altman. Porém este insólito western não fez outra coisa que não crescer em prestígio através das décadas seguintes, o que muito se deve a críticos como Pauline Kael e Roger Ebert, dois dos muitos que vêem “Jogos e Trapaças” como uma obra-prima e o melhor filme de Altman. Recentemente, uma enquete da British Broadcasting Corporation o apontou como o 16.º melhor filme norte-americano de todos os tempos. Na enquete decenal da revista “Sight & Sound” realizada em 2012, “Jogos e Trapaças” foi o 13.º western mais votado, à frente de westerns estimados como “Os Brutos Também Amam” (Shane), “Os Imperdoáveis” (Unforgiven) e “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country), respectivamente 15.º, 22.º e 30.º colocados. Não um filme para apreciadores dos westerns clássicos ou mesmo dos westerns-spaghetti, “Jogos e Trapaças” é um filme com inegáveis qualidades e imprescindível para os fãs do gênero, mesmo que, como quase todos os filmes de Robert Altman aplique-se o ‘love it or leave it.


10 de março de 2017

RASTROS DE ÓDIO (THE SEARCHERS) – JOHN FORD E JOHN WAYNE NO MELHOR DE TODOS OS WESTERNS


John Wayne e Natalie Wood
Quando Ethan Edwards elevou a frágil e assustada sobrinha acima de sua cabeça e abraçando-a lhe disse “Let’s go home, Debbie”, estava o cinema sendo elevado a um momento maior de grandeza e poesia. Porém, ao longo das duas horas deste faroeste, o autor da frase e do delicado gesto foi mostrado como o mais sombrio e amedrontador personagem principal que um western jamais exibira ou exibiria. De forma devastadora John Ford rompeu com os arquétipos de heróis que o gênero criara e apresentou um homem não só rude e corajoso, mas e principalmente neurótico, preconceituoso e por fim paradoxal no seu comportamento. Na década de 50 acenderam-se nos Estados Unidos os questionamentos sobre as injustiças sociais e, justamente em meio aos ainda tímidos movimentos, John Ford realizou um western que mostrou cruamente a realidade do pensamento dos norte-americanos. Tachado por muitos analistas como um filme racista, em “Rastros de Ódio” o personagem principal (Ethan Edwards), odeia os índios, para ele seres desumanos e sanguinários. Aos poucos, no entanto, Ford mostra que Ethan pouco difere de Cicatriz, o feroz chefe Comanche que destruiu a propriedade de seu irmão dizimando a família toda, ou quase toda.


Henry Brandon e Lana Lisa Wood
A longa busca - Três anos após o fim da Guerra Civil, Ethan Edwards (John Wayne) que lutara pelo Exército Confederado, retorna ao rancho do irmão Aaron (Walter Coy) que o acolhe friamente, ao contrário da cunhada Martha (Dorothy Jordan) e dos sobrinhos. Convocados por Samuel Johnston Clayton, misto de capitão dos Texas Rangers e reverendo, Ethan e seu sobrinho Martin Pawley (Jeffrey Hunter) deixam a propriedade em perseguição a Comanches hostis. Percebendo terem sido enganados pelos índios, Ethan e Martin retornam ao rancho que foi devastado pelos índios liderados por Cicatriz (Henry Brandon), restando apenas os corpos carbonizados. O chefe Comanche poupou e levou consigo, as irmãs Lucy (Pippa Scott) e Debbie (Lana Lisa Wood), provocando em Ethan Edwards a decisão de encontrá-las onde quer que estivessem. Ethan e Martin encetam uma busca que dura cinco anos, durante a qual descobrem que Lucy foi morta e Debbie (Natalie Wood) foi feita uma das mulheres de Cicatriz. Disposto a matar a sobrinha, finalmente Ethan a encontra, deixando de lado sua obcecada determinação e levando Debbie de volta para junto de uma família branca.

Vera Miles; John Wayne, Beulah Archuletta
e Jeffrey Hunter
Tomada de consciência - “Rastros de Ódio” toca profundamente no tema do racismo isto num tempo (década de 50) em que os índios haviam sido praticamente dizimados pelos brancos, especialmente pelos soldados da cavalaria com seus garbosos uniformes azuis. Conhecendo-se o pensamento liberal de John Ford, é perfeitamente possível interpretar este filme como um libelo diante das flagrantes injustiças sociais, passadas e contemporâneas, da América do Norte. Ethan Edwards exala preconceito por todos os poros, não perdoando sequer seu sobrinho por este ter sangue índio (1/6 Cherokee). Mas o próprio Martin Pawley, com sangue predominantemente inglês como ele mesmo lembra, tem oportunidade de demonstrar o desprezo pela infeliz índia Look (Beulah Archuletta), que inadvertidamente se torna sua esposa segundo o costume dos índios. A doce Laurie Jorgensen (Vera Milles) descendente de nórdicos e seu alegre pretendente Charlie McCorry (Ken Curtis) não deixam por menos e igualmente expressam seus preconceitos durante a leitura de uma carta enviada por Martin. A sequência crucial deste western ocorre com Ethan Edwards abraçando a desonrada e maculada (segundo seu código particular) Debbie e levando-a para um novo lar. Como faz usualmente, John Ford deixa para o espectador decidir se o resoluto Ethan mudou devido à lembrança de Martha transferida para Debbie em seus braços ou por uma tomada de consciência que mesmo homens irracionais como Ethan podem vir a ter.

Walter Coy, John Wayne e Dorothy Jordan;
Dorothy Jordan (abaixo)
Triângulo familiar - Obra de gênio realizada sem maiores pretensões, “Rastros de Ódio” além de seu inequívoco aspecto social é um western deslumbrante em sua beleza plástica. Cada fotograma, especialmente aqueles capturados no Monument Valley, mais parecem pinturas extraordinárias com personagens do Velho Oeste em movimento. Fosse apenas isso e este filme seria, como tantos, mero álbum de magníficos cenários. Há, porém, nos gestos e frases de cada personagem a sutileza que somente um diretor como Ford é capaz de incutir. Mesmo sem diálogos, como na admirável sequência em que Martha acariciando o sobretudo de Ethan demonstra o amor que sente pelo cunhado. Tão magnífico momento não poderia ser melhor completado que com o olhar de desaprovação do Capitão-Reverendo. Recorde-se que o incomum triângulo familiar não consta do livro “The Searchers” de Alan LeMay, tendo sido criado por Ford e o roteirista Frank S. Nugent com o objetivo de mais acentuadamente justificar a obstinada busca de Ethan Edwards pela sobrinha. E Ford sabiamente ambíguo lança a dúvida se Debbie seria apenas sobrinha ou filha mesmo de Ethan, reforçando essa questão com seu afastamento por tanto tempo após finda a guerra. A hostilidade do execrável e cobiçoso irmão Aaron perguntando a Ethan por que ele voltou se desmancha diante das moedas que lhe traz Ethan, o que mais os contrapõem aos olhos de Martha. Fica evidente que parte da reação de Aaron tem fundamento num passado que somente ele, Martha e Ethan conhecem.

Dorothy Jordan e John Wayne; Ward Bond, John Wayne e Dorothy Jordan

Western racista? - A selvageria de Ethan e de Cicatriz são atenuadas pelas imagens de esplendorosa beleza e Ford praticamente nada de violência coloca na tela, apenas seus efeitos devastadores. O Mestre arrebata visualmente sem se esquecer daquilo que precisa ser dito, como quando Martin Pawley ao se deparar com o massacre de Washita River pergunta por que os soldados tiveram que matar ‘Look’ (Beulah Archuletta), concluindo: “Ela nunca fez mal a ninguém”, frase que dever ser estendida a toda raça vermelha exterminada pelos brancos, não só seus bravos guerreiros mas também mulheres crianças e velhos. Cicatriz ao exibir os escalpos lembra que os brancos mataram seus dois filhos e para cada filho que perdeu retira muitos escalpos. A sede por sangue é justificada tanto pelos aniquilados nativos quanto pelos brancos que querem expandir sua civilização. “Rastros de Ódio” não é um filme racista, mas sim denuncia essa odiosa forma de pensamento.

John Wayne Jeffrey Hunter; Natalie Wood

Na foto abaixo John Wayne
‘Descuídos’ de John Ford - Com tamanha carga psicológica e social, “Rastros de Ódio” é um fascinante western que contém belos momentos de ação, ainda que muitos reparos a eles possam ser feitos pelos ‘descuidos’ característicos de Ford durante as filmagens. Comumente filmando em ‘one-take’, o diretor entendia que o público não iria se preocupar com pequenos detalhes, para ele irrelevantes, mas que uma obra desta dimensão bem mereceria ter evitado. Entre erros grosseiros de continuidade o mais gritante é a perseguição dos índios aos Rangers e colonos, com os perseguidores num momento próximos poucos metros e em seguida se distanciando inexplicavelmente. Ou ainda quando da carga da cavalaria contra a tribo estranhamente desguarnecida sob inaceitável mudanças de luminosidade com o uso de lentes? Uma sequência fácil de ser refilmada como a do índio morto que, antes de ter os olhos alvejados por Ethan Edwards, respira saudavelmente comprovam negligência que deve ser atribuída ao diretor. Mesmo diante da imponência deste grande western é difícil fechar os olhos, como imaginava Ford, a estes pormenores que, arrasariam qualquer outro filme mas não destroem “Rastros de Ódio”. Perguntado pelo escritor Joseph McBride sobre este western, Ford respondeu laconicamente: “É um bom filme que rendeu um bom dinheiro e esse era o objetivo”. Seria até possível imaginar que este seria um faroeste comum, ainda que dirigido por John Ford e estrelado por John Wayne, o que por sis ó o diferencia enormemente. Ainda assim, mesmo na versões recentes remasterizadas, lá está um inoportuno veículo transitando com faróis acesos numa estrada à direita na sequência em que a Cavalaria segue sobre a neve.

Em primeiro plano Ward Bond (acima)
e Olive Carey (abaixo)
Comicidade duvidosa - Ford encontra espaço como não poderia deixar de ser para mostrar a idealizada comunidade que gostava de focalizar em seus filmes. A sequência de baile abrilhantada musicalmente pelo grupo vocal-instrumental Sons of Pioneers é abruptamente interrompida pela chegada de Ethan e Martin, dando lugar a um dos momentos de comédia, desta vez em forma de jocosamente respeitosa luta. Mas é durante o casamento que é dita a irresistível frase “Foi uma boa festa de casamento, considerando-se que não houve casamento...” (Ward Bond). Ou ainda quando Ken Curtis pede a Jeffrey Hunter abraçado a Vera Miles: “Eu agradeceria se você soltasse a minha noiva”. Esses achados do roteiro de Frank S. Nugent convivem com os momentos pretensamente divertidos, alguns excessivos mesmo como a sequência da ‘cirurgia’ no traseiro do Reverendo-Capitão ou a desprezível e nada engraçada atitude de Martin e Ethan com a índia Look. Por outro lado, quem mais senão Ford poderia imortalizar Mose Harper (Hank Worden) um dos mais marcantes e engraçados personagens secundários de um western clássico?

O pós-casamento do matrimônio que não aconteceu

John Wayne e Jeffrey Hunter
Suprema interpretação - Tantas e tantas vezes John Wayne mostrou ser bom ator derrubando os argumentos que era sempre o mesmo nos filmes independentemente do personagem que interpretava. Como Ethan Edwards o Duke tem o supremo desempenho de sua carreira, emocionando como o vingativo, preconceituoso rude e irritadiço ex-confederado que sensibiliza o espectador, não raro até às lágrimas, quando a porta se fecha ao final excluindo-o da civilização que se forma, ele que é o mais desajustado personagem dos westerns de John Ford. Wayne é tão majestoso e poderoso quanto o próprio Monument Valley. Jeffrey Hunter tem igualmente o melhor desempenho de sua carreira, mesmo sofrendo a inevitável intimidação de Wayne. Glenn Frankell, autor do livro “The Searchers” sobre as origens do filme diz com propriedade que a relação Ethan-Martin é uma reprodução de como era a relação entre Ford-Wayne. Lembre-se ainda que no livro de Alan LeMay é Martin Pawley e não Ethan Edwards o principal personagem. Henry Brandon mereceria muito mais tempo no filme com sua impressionante personificação como o sinistro Cicatriz ele que quando entra em cena traz consigo a ameaça e o medo. Ford não era o que se costuma chamar de ‘diretor de atores’, pouco se atendo a minúcias interpretativas, ainda assim extraía excelentes performances de seus atores que magicamente e sem muitos ensaios entendiam o que o Mestre queria. Vera Miles como Laurie Jorgensen é um exemplo disso. Estupendo ator característico, Ward Bond é o responsável por um momento de pura arte interpretativa silenciosa na sequência do enlevo de Martha antes da partida de Ethan. Natalie Wood está encantadora como índia num pequeno papel aos 16 anos de idade. E com que satisfação se assiste a um elenco perfeito com a veterana Olive Carey e Dorothy Jordan, esta esposa do produtor Merian C. Cooper e ainda Harry Carey Jr., Walter Coy, Hank Worden, Antonio Moreno e John Qualen.

A maravilhosa cinematografia de Winton C. Hoch
Beleza insuperável de imagens – Não inteiramente satisfeito com a trilha composta por Max Steiner, John Ford recrutou o grupo Sons of Pioneers que contribuiu bastante para a magnífica música de “Rastros de Ódio”. Curiosamente, o premiado Steiner realizou um trabalho verdadeiramente memorável mesclando instrumentos de percussão com os de sopro que tanto admira e criando a adequada atmosfera sonora especialmente para sequências passadas no Monument Valley. Adaptou ainda o maestro-compositor austro-húngaro diversas canções tradicionais, destacando “Lorena” para o lírico encontro de Ethan com Martha e a família. No início e final ouve-se “The Searchers”, composta especialmente por Stan Jones para o filme de Ford. Destaque ainda maior na parte técnica fica para a exuberante fotografia de Winton C. Hoch que faz de “Rastros de Ódio” um espetáculo difícil de ser esquecido pela beleza de suas imagens, superando o igualmente maravilhoso “Legião Invencível”, que teve também a cinematografia de Winton C. Hoch. Após três prêmios Oscar da Academia de Hollywood por “Joana d’Arc” (1948), “Legião Invencível” e “Depois do Vendaval”, Winton C. Hoch sequer foi lembrado por este seu trabalho.

Texas Rangers no Monument Valley; o retorno à fazenda dos Jorgensen

John Wayne e John Ford
Obra de arte cinematográfica - A cada revisão “Rastros de Ódio” parece melhor, maior e mais importante. Não por outra razão é um dos filmes mais estudados da história do cinema pela excepcional geração de cineastas formada nos anos 70 e 80, diretores a quem muito se deve também ao status adquirido por este filme de John Ford através dos anos. Senão o melhor filme já feito, um dos melhores, conforme atestam tantas enquetes, entre elas as decenais da revista inglesa “Sight & Sound”. A parceria Ford-Wayne que resultou em tantos brilhantes filmes atingiu com “Rastros de Ódio” seu ponto mais alto, inquestionável verdadeira obra de arte cinematográfica. Esta resenha crítica foi feita para comemorar o 60.º aniversário do lançamento de “Rastros de Ódio” no Brasil, fato que ocorreu em março de 1957. Outras postagens abordando diferentes aspectos desta obra-prima de John Ford podem ser lidos neste blog nos seguintes links:

http://westerncinemania.blogspot.com.br/2015/02/westerntestemania-n-33-rastros-de-odio.html

Hank Worden, John Qualen e Olive Carey; John Wayne


20 de fevereiro de 2017

ERA UMA VEZ NO OESTE (C’Era Una Volta Il West) – A ‘MAGNUM OPUS’ DE SERGIO LEONE


Sergio Leone
Estudioso da história do Velho Oeste norte-americano e de tudo que se relacionava com o gênero cinematográfico que muito o influenciou quando criança (o faroeste, claro), Sergio Leone certamente não levou em consideração a máxima do historiador William K. Everson que dizia: “Os westerns são melhores quando mais simples”. Antes o crítico André Bazin já havia alertado para o fato de superwesterns descaracterizarem o gênero, citando “Os Brutos Também Amam” (Shane) como exemplo de faroeste excessivamente elaborado. Mas em 1967, após o estrondoso sucesso de bilheteria de sua ‘Trilogia dos Dólares’, Sergio Leone pouco estava se importando com opiniões como essas. E com o orçamento de três milhões de dólares que a Paramount colocou à sua disposição Leone entendeu que era o momento de mostrar ao mundo com “Era Uma Vez no Oeste” que seu nome decididamente merecia figurar no panteão dos maiores diretores do gênero. Para se conhecer detalhes da pré-produção, escolha de elenco e outros pormenores deste filme sugiro a leitura da postagem, aqui no WESTERNCINEMANIA do link http://westerncinemania.blogspot.com.br/2013/07/era-uma-vez-um-western-dirigido-por.html


Esperança e morte no Monument Valley.
Um sonho e uma vingança - Jill McBain (Claudia Cardinale) é uma ex-prostituta de New Orleans que chega à cidade de Flagstone, no Arizona, para conhecer seu marido, o irlandês Brett McBain (Frank Wolff), com quem se casara um mês antes em New Orleans. McBain é proprietário de terras por onde passará a estrada de ferro pertencente a Morton (Gabriele Ferzetti). Este quer as terras de McBain e contrata o pistoleiro Frank (Henry Fonda) para intimidar o irlandês, mas Frank assassina friamente McBain e seus três filhos. A princípio Jill pensa em se desfazer da propriedade chamada Sweetwater, porém após conhecer o bandido mexicano Manuel ‘Cheyenne’ Gutierrez (Jason Robards) e ainda um estranho apelidado ‘Harmônica’ (Charles Bronson), Jill muda de ideia. A mulher passa então a acalentar o sonho do marido de transformar Sweetwater não apenas em uma mera estação, mas em uma pequena cidade. Cheyenne acaba de fugir de uma prisão e Harmônica quer se vingar de Frank que havia matado seu irmão há muitos anos, quando Harmônica era ainda adolescente. Morton atraiçoa Frank que então mata o magnata. Morton porém havia antes ferido mortalmente Cheyenne. Frank e Harmônica se defrontam num duelo vencido por Harmônica que só então revela a Frank quem ele é. Jill permanece em Sweetwater, vendo a cidade florescer.

Henry Fonda e  (abaixo) Charles Bronson
Western como se fosse ópera - Esta história relativamente simples, escrita por Dario Argento, Bernardo Bertolucci e pelo próprio Sergio Leone rendeu um roteiro de 420 páginas das quais somente 14 eram de diálogos. Leone costumava citar uma frase de John Ford na qual o Mestre das Pradarias afirmara que “um bom filme de ação não pode ter muitos diálogos”. Contraditoriamente, “Era Uma Vez no Oeste” não foi concebido por seu diretor para ser um filme de ação, mas sim uma espécie de ópera onde pudesse exercitar sua criatividade cinematográfica. Assim como em muitas óperas, cada personagem é caracterizado por um tema musical e disso se encarregou magistralmente Ennio Morricone. Com a música do maestro-compositor somada às ideias que tinha para as não muito numerosas sequências que o roteiro indicava, Leone contou com a preciosa colaboração do diretor de arte Carlo Simi para construir os impressionantes cenários para a magna ópera-western que o delirante diretor imaginou. Não se canta em “Era Uma Vez no Oeste”, mas este monumental e compassado western é um espetáculo que bem poderia ser encenado no Scala de Milão ou no Metropolitan Opera de Nova York.

Charles Bronson (acima; nas demais fotos
Al Mulock, Jack Elam e Woody Strode
Sequências ultraelaboradas - Para um western de 171 minutos (como foi lançado na Europa) ou 165 minutos como a duração da edição lançada em DVD duplo, “Era Uma Vez no Oeste” possui relativamente pouca ação. Mas em cada momento em que ocorrem confrontos a bala, como na sequência inicial do duelo de Harmônica contra três pistoleiros, a câmara de Tonino Delli Colli orientada por Leone explora incansavelmente através de close-ups personagens e detalhes de tudo quanto estiver ao alcance das lentes jamais apressadas do cinegrafista. Essa sequência inicial dura na tela exatos onze minutos, menor apenas àquela do epílogo em que Harmônica mata Frank, não sem antes realizarem um vagaroso balé, entrecortado por um flashback igualmente lento, sequência que dura 13 minutos. Mais apressado é o massacre dos McBain, até porque seria de extremo mau gosto que as mortes dos irmãos adolescentes Patrick (Stefano Imparato) e Maureen (Simonetta Santaniello) e do pequeno Timmy (Enzo Santaniello) fossem exploradas com requintes de violência comuns às outras mortes. A maior parte das sequências de “Era Uma Vez no Oeste” são tão arrastadas quanto perfeitas e majestosas visualmente, com Leone mudando bastante a estética de seus primeiros dois filmes com Clint Eastwood e ensaiada com “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo).

Henry Fonda com Marco Zuanelli;
Lionel Stander com Jason Robards
Diálogos antológicos, outros nem tanto - O impacto visual deste western é formidável, como a primorosa e inesquecível apresentação da cidade de Flagstone ao som de “C’Era Una Volta Il West”, assim como a entrada em Sweetwater (Monument Valley). “Era Uma Vez no Oeste” faz referências a inúmeros faroestes clássicos norte-americanos (30 referências, segundo o escritor Christopher Frayling, reconhecido como o maior conhecedor da obra de Leone) e o diretor italiano não poderia deixar de fazer uma homenagem maior com locações no espaço sagrado onde John Ford rodou oito de seus westerns. Nessa sequência ouve-se “L’America di Jill”, outra admirável composição de Ennio Morricone. Aparentemente ninguém tem pressa em “Era Uma Vez no Oeste” pois todos os personagens fazem longas reflexões antes de qualquer fala, por menor e mais irrelevante que seja o que se tem a dizer. E nenhuma frase expressada por Cheyenne (um bandido mexicano lembro) deixa de ser carregada de filosofia que até o próprio Jason Robards constrangidamente é obrigado a pronunciar. Mas se os diálogos de Cheyenne parecem ser no mais das vezes inoportunos, há aqueles que entraram para o rol das frases antológicas do faroeste, como o diálogo entre Snaky (Jack Elam) e Harmônica: “Parece que há um cavalo a menos” / “Não, trouxeram dois a mais”, após o que Harmônica liquida os três oponentes. Mais tarde o mesmo Harmônica diz espirituosamente, referindo-se aos bandidos mortos: “Uma vez vi três casacos esperando um trem; dentro deles havia três homens e dentro dos homens havia três balas”. E ainda quando Frank diz para Wobbles (Marco Zuanelli): “Como confiar em um homem que usa suspensórios e cinto; você não confia nem nas suas calças...”

Jason Robards e Gabriele Ferzetti
Roteiro falho - A história escrita por Argento, Bertolucci e Leone foi roteirizada por Sergio Donatti e transcrito para o Inglês por Mickey Knox. Mesmo com tantas mãos participando do trabalho há em “Era Uma Vez no Oeste” algumas falhas no roteiro que não passam despercebidas nem pelo mais desatento espectador. Entre elas a falta de uma razão para Cheyenne ajudar Harmônica; o mortal ferimento de Cheyenne, alvejado por Morton e que não o afeta durante seu longo diálogo com Jill que antecede o duelo final entre Frank e harmônica; Jill se envolver com Frank que massacrara a família de seu marido; Cheyenne não ter se lembrado que no encontro no bar Jill estava presente, assim como Harmônica. Tantos furos no roteiro comprometem bastante este western tão elaborado de Leone e que se prolonga em close-ups após close-ups. Sabe-se que Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach foram inicialmente pensados por Leone para interpretar respectivamente Harmônica, Frank e Cheyenne. Esse fato explica a forçada presença deste último personagem desperdiçado inteiramente no filme, a ponto de se imaginar que “Era Uma Vez no Oeste” ficaria muito melhor sem o bandido mexicano o qual certamente Eli Wallach tornaria muito mais interessante.

Claudia Cardinalle
Claudia Cardinale, beleza insuficiente - Henry Fonda está soberbo como o vilão Frank, ele que representou melhor que ninguém e em tantos filmes personagens íntegros. Charles Bronson menos taciturno e quem ouvir opiniões de outros participantes do filme no documentário que acompanha o filme compreenderá melhor o processo criativo de Bronson como intérprete. O bom ator Jason Robards passa o filme como estranho no ninho a proferir frases de descabida profundidade para seu personagem, o mais eloquente bandido mexicano do cinema. Gabriele Ferzetti como o fragilizado dono de ferrovia poderia ser mais expressivo. Claudia Cardinale inunda a tela com sua beleza mas deixa a desejar como atriz dramática num papel que a espanhola (de Almería) Nieves Navarro interpretaria com mais força, mas de olho na bilheteria prevaleceu o nome de Claudia. O vasto elenco de coadjuvantes traz os norte-americanos Jack Elam, Woody Strode e o canadense Al Mulock na sequência inicial. O ótimo Aldo Sambrell tem pouca oportunidade para aparecer.

Henry Fonda e Charles Bronson
Um filme dependente da musica - Se “Era Uma Vez no Oeste” acaba por ser um filme arrastado com os excessos impostos por Leone, por outro lado o espectador se extasia com a beleza das imagens que se sucedem, sequência após sequência. Essas imagens são extraordinariamente valorizadas, como foi dito, pela inspiradíssima trilha musical de Morricone, sublime em certos momentos e, sem dúvida uma das mais perfeitas já compostas para um filme. A exceção é o tema de Cheyenne “Addio a Cheyenne”, executado em banjo, tabla e o assovio de Alessandro Alessandroni, tema que nada tem de mexicano, com andamento semicômico e que destoa das magníficas demais peças musicais. A voz da soprano Edda Dell’Orso e o Coral de Alessandro Alessandroni entoando o “Finale” é, ao mesmo tempo, enternecedor e sombrio gravando as imagens indelevelmente na mente do espectador. A importância da musica neste western de Sergio Leone pode ser melhor estimada assistindo-se algumas das deslumbrantes sequências sem a trilha, o que empobrece sobremaneira o resultado final. Maiores informações sobre a trilha composta por Ennio Morricone podem ser lidas neste link:

Dino Mele
Suprema teatralização - Leone pretendeu mostrar a chegada da civilização ao Velho Oeste realizando um filme majestoso e deslumbrante. Atingiu seu objetivo pois nenhum outro western se compara a “Era Uma Vez no Oeste” quanto a impressionar pelo lirismo de suas imagens. Reconhecido tanto por sua criatividade quanto por seus excessos, Leone não dosou seu estilo e concebeu uma grande ópera-western, a suprema teatralização do gênero que mais justo seria ser creditada como um filme de Sergio Leone e Ennio Morricone.