UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

20 de fevereiro de 2017

ERA UMA VEZ NO OESTE (C’Era Una Volta Il West) – A ‘MAGNUM OPUS’ DE SERGIO LEONE


Sergio Leone
Estudioso da história do Velho Oeste norte-americano e de tudo que se relacionava com o gênero cinematográfico que muito o influenciou quando criança (o faroeste, claro), Sergio Leone certamente não levou em consideração a máxima do historiador William K. Everson que dizia: “Os westerns são melhores quando mais simples”. Antes o crítico André Bazin já havia alertado para o fato de superwesterns descaracterizarem o gênero, citando “Os Brutos Também Amam” (Shane) como exemplo de faroeste excessivamente elaborado. Mas em 1967, após o estrondoso sucesso de bilheteria de sua ‘Trilogia dos Dólares’, Sergio Leone pouco estava se importando com opiniões como essas. E com o orçamento de três milhões de dólares que a Paramount colocou à sua disposição Leone entendeu que era o momento de mostrar ao mundo com “Era Uma Vez no Oeste” que seu nome decididamente merecia figurar no panteão dos maiores diretores do gênero. Para se conhecer detalhes da pré-produção, escolha de elenco e outros pormenores deste filme sugiro a leitura da postagem, aqui no WESTERNCINEMANIA do link http://westerncinemania.blogspot.com.br/2013/07/era-uma-vez-um-western-dirigido-por.html


Esperança e morte no Monument Valley.
Um sonho e uma vingança - Jill McBain (Claudia Cardinale) é uma ex-prostituta de New Orleans que chega à cidade de Flagstone, no Arizona, para conhecer seu marido, o irlandês Brett McBain (Frank Wolff), com quem se casara um mês antes em New Orleans. McBain é proprietário de terras por onde passará a estrada de ferro pertencente a Morton (Gabriele Ferzetti). Este quer as terras de McBain e contrata o pistoleiro Frank (Henry Fonda) para intimidar o irlandês, mas Frank assassina friamente McBain e seus três filhos. A princípio Jill pensa em se desfazer da propriedade chamada Sweetwater, porém após conhecer o bandido mexicano Manuel ‘Cheyenne’ Gutierrez (Jason Robards) e ainda um estranho apelidado ‘Harmônica’ (Charles Bronson), Jill muda de ideia. A mulher passa então a acalentar o sonho do marido de transformar Sweetwater não apenas em uma mera estação, mas em uma pequena cidade. Cheyenne acaba de fugir de uma prisão e Harmônica quer se vingar de Frank que havia matado seu irmão há muitos anos, quando Harmônica era ainda adolescente. Morton atraiçoa Frank que então mata o magnata. Morton porém havia antes ferido mortalmente Cheyenne. Frank e Harmônica se defrontam num duelo vencido por Harmônica que só então revela a Frank quem ele é. Jill permanece em Sweetwater, vendo a cidade florescer.

Henry Fonda e  (abaixo) Charles Bronson
Western como se fosse ópera - Esta história relativamente simples, escrita por Dario Argento, Bernardo Bertolucci e pelo próprio Sergio Leone rendeu um roteiro de 420 páginas das quais somente 14 eram de diálogos. Leone costumava citar uma frase de John Ford na qual o Mestre das Pradarias afirmara que “um bom filme de ação não pode ter muitos diálogos”. Contraditoriamente, “Era Uma Vez no Oeste” não foi concebido por seu diretor para ser um filme de ação, mas sim uma espécie de ópera onde pudesse exercitar sua criatividade cinematográfica. Assim como em muitas óperas, cada personagem é caracterizado por um tema musical e disso se encarregou magistralmente Ennio Morricone. Com a música do maestro-compositor somada às ideias que tinha para as não muito numerosas sequências que o roteiro indicava, Leone contou com a preciosa colaboração do diretor de arte Carlo Simi para construir os impressionantes cenários para a magna ópera-western que o delirante diretor imaginou. Não se canta em “Era Uma Vez no Oeste”, mas este monumental e compassado western é um espetáculo que bem poderia ser encenado no Scala de Milão ou no Metropolitan Opera de Nova York.

Charles Bronson (acima; nas demais fotos
Al Mulock, Jack Elam e Woody Strode
Sequências ultraelaboradas - Para um western de 171 minutos (como foi lançado na Europa) ou 165 minutos como a duração da edição lançada em DVD duplo, “Era Uma Vez no Oeste” possui relativamente pouca ação. Mas em cada momento em que ocorrem confrontos a bala, como na sequência inicial do duelo de Harmônica contra três pistoleiros, a câmara de Tonino Delli Colli orientada por Leone explora incansavelmente através de close-ups personagens e detalhes de tudo quanto estiver ao alcance das lentes jamais apressadas do cinegrafista. Essa sequência inicial dura na tela exatos onze minutos, menor apenas àquela do epílogo em que Harmônica mata Frank, não sem antes realizarem um vagaroso balé, entrecortado por um flashback igualmente lento, sequência que dura 13 minutos. Mais apressado é o massacre dos McBain, até porque seria de extremo mau gosto que as mortes dos irmãos adolescentes Patrick (Stefano Imparato) e Maureen (Simonetta Santaniello) e do pequeno Timmy (Enzo Santaniello) fossem exploradas com requintes de violência comuns às outras mortes. A maior parte das sequências de “Era Uma Vez no Oeste” são tão arrastadas quanto perfeitas e majestosas visualmente, com Leone mudando bastante a estética de seus primeiros dois filmes com Clint Eastwood e ensaiada com “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo).

Henry Fonda com Marco Zuanelli;
Lionel Stander com Jason Robards
Diálogos antológicos, outros nem tanto - O impacto visual deste western é formidável, como a primorosa e inesquecível apresentação da cidade de Flagstone ao som de “C’Era Una Volta Il West”, assim como a entrada em Sweetwater (Monument Valley). “Era Uma Vez no Oeste” faz referências a inúmeros faroestes clássicos norte-americanos (30 referências, segundo o escritor Christopher Frayling, reconhecido como o maior conhecedor da obra de Leone) e o diretor italiano não poderia deixar de fazer uma homenagem maior com locações no espaço sagrado onde John Ford rodou oito de seus westerns. Nessa sequência ouve-se “L’America di Jill”, outra admirável composição de Ennio Morricone. Aparentemente ninguém tem pressa em “Era Uma Vez no Oeste” pois todos os personagens fazem longas reflexões antes de qualquer fala, por menor e mais irrelevante que seja o que se tem a dizer. E nenhuma frase expressada por Cheyenne (um bandido mexicano lembro) deixa de ser carregada de filosofia que até o próprio Jason Robards constrangidamente é obrigado a pronunciar. Mas se os diálogos de Cheyenne parecem ser no mais das vezes inoportunos, há aqueles que entraram para o rol das frases antológicas do faroeste, como o diálogo entre Snaky (Jack Elam) e Harmônica: “Parece que há um cavalo a menos” / “Não, trouxeram dois a mais”, após o que Harmônica liquida os três oponentes. Mais tarde o mesmo Harmônica diz espirituosamente, referindo-se aos bandidos mortos: “Uma vez vi três casacos esperando um trem; dentro deles havia três homens e dentro dos homens havia três balas”. E ainda quando Frank diz para Wobbles (Marco Zuanelli): “Como confiar em um homem que usa suspensórios e cinto; você não confia nem nas suas calças...”

Jason Robards e Gabriele Ferzetti
Roteiro falho - A história escrita por Argento, Bertolucci e Leone foi roteirizada por Sergio Donatti e transcrito para o Inglês por Mickey Knox. Mesmo com tantas mãos participando do trabalho há em “Era Uma Vez no Oeste” algumas falhas no roteiro que não passam despercebidas nem pelo mais desatento espectador. Entre elas a falta de uma razão para Cheyenne ajudar Harmônica; o mortal ferimento de Cheyenne, alvejado por Morton e que não o afeta durante seu longo diálogo com Jill que antecede o duelo final entre Frank e harmônica; Jill se envolver com Frank que massacrara a família de seu marido; Cheyenne não ter se lembrado que no encontro no bar Jill estava presente, assim como Harmônica. Tantos furos no roteiro comprometem bastante este western tão elaborado de Leone e que se prolonga em close-ups após close-ups. Sabe-se que Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach foram inicialmente pensados por Leone para interpretar respectivamente Harmônica, Frank e Cheyenne. Esse fato explica a forçada presença deste último personagem desperdiçado inteiramente no filme, a ponto de se imaginar que “Era Uma Vez no Oeste” ficaria muito melhor sem o bandido mexicano o qual certamente Eli Wallach tornaria muito mais interessante.

Claudia Cardinalle
Claudia Cardinale, beleza insuficiente - Henry Fonda está soberbo como o vilão Frank, ele que representou melhor que ninguém e em tantos filmes personagens íntegros. Charles Bronson menos taciturno e quem ouvir opiniões de outros participantes do filme no documentário que acompanha o filme compreenderá melhor o processo criativo de Bronson como intérprete. O bom ator Jason Robards passa o filme como estranho no ninho a proferir frases de descabida profundidade para seu personagem, o mais eloquente bandido mexicano do cinema. Gabriele Ferzetti como o fragilizado dono de ferrovia poderia ser mais expressivo. Claudia Cardinale inunda a tela com sua beleza mas deixa a desejar como atriz dramática num papel que a espanhola (de Almería) Nieves Navarro interpretaria com mais força, mas de olho na bilheteria prevaleceu o nome de Claudia. O vasto elenco de coadjuvantes traz os norte-americanos Jack Elam, Woody Strode e o canadense Al Mulock na sequência inicial. O ótimo Aldo Sambrell tem pouca oportunidade para aparecer.

Henry Fonda e Charles Bronson
Um filme dependente da musica - Se “Era Uma Vez no Oeste” acaba por ser um filme arrastado com os excessos impostos por Leone, por outro lado o espectador se extasia com a beleza das imagens que se sucedem, sequência após sequência. Essas imagens são extraordinariamente valorizadas, como foi dito, pela inspiradíssima trilha musical de Morricone, sublime em certos momentos e, sem dúvida uma das mais perfeitas já compostas para um filme. A exceção é o tema de Cheyenne “Addio a Cheyenne”, executado em banjo, tabla e o assovio de Alessandro Alessandroni, tema que nada tem de mexicano, com andamento semicômico e que destoa das magníficas demais peças musicais. A voz da soprano Edda Dell’Orso e o Coral de Alessandro Alessandroni entoando o “Finale” é, ao mesmo tempo, enternecedor e sombrio gravando as imagens indelevelmente na mente do espectador. A importância da musica neste western de Sergio Leone pode ser melhor estimada assistindo-se algumas das deslumbrantes sequências sem a trilha, o que empobrece sobremaneira o resultado final. Maiores informações sobre a trilha composta por Ennio Morricone podem ser lidas neste link:

Dino Mele
Suprema teatralização - Leone pretendeu mostrar a chegada da civilização ao Velho Oeste realizando um filme majestoso e deslumbrante. Atingiu seu objetivo pois nenhum outro western se compara a “Era Uma Vez no Oeste” quanto a impressionar pelo lirismo de suas imagens. Reconhecido tanto por sua criatividade quanto por seus excessos, Leone não dosou seu estilo e concebeu uma grande ópera-western, a suprema teatralização do gênero que mais justo seria ser creditada como um filme de Sergio Leone e Ennio Morricone.


3 de fevereiro de 2017

PAT GARRETT & BILLY THE KID – SAM PECKINPAH E UMA LENDA DO WESTERN



Aos 33 anos de idade Rudolph Wurlitzer escreveu o roteiro de “Corrida Sem Fim” (1971), filme que instantaneamente virou um cult-movie dirigido por Monte Hellman, diretor que era amigo de Sam Peckinpah. ‘Bloody Sam’ ficou impressionado com este filme estrelado por James Taylor e Warren Oates e acabou conhecendo Wurlitzer que lhe falou sobre uma história que acabara de escrever narrando as últimas semanas de vida de Billy the Kid antes de ser morto por Pat Garrett. Peckinpah já havia abordado esse tema quando escreveu o roteiro de “The Autentic Death of Hendry Jones”, roteiro que foi rejeitado por Marlon Brando para seu western “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks). O tema em questão era a relação entre dois bandidos sendo que um, o mais velho (Karl Malden), passa para o lado da lei. As similitudes atraíram Sam que se interessou em dirigir o filme baseado no roteiro de Wurlitzer, western produzido pela Metro Goldwyn Mayer com orçamento previsto de três milhões de dólares e 50 dias de filmagens. O prestígio de Peckinpah estava em alta depois do extraordinário êxito artístico de “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch) e do previsível sucesso comercial do excelente “Os Implacáveis” (1972). Havia no ar uma quase certeza que Peckinpah realizaria outro grande filme.

Nas fotos à direita Rudolph (Rudy) Wurlitzen com Sam Peckinpah;
abaixo Steve McQueen em "Os Implacáveis" e
William Holden em "Meu Ódio Será Sua Herança".


James Coburn e Kris Kristofferson
Amizade e morte - Pat Garrett (James Coburn) e Billy the Kid (Kris Kristofferson) haviam sido amigos quando ambos eram foras-da-lei. Billy the Kid continuou na sua vida de crimes alugando seu revólver ao barão de gado John Chisum (Barry Sullivan) durante o conflito armado entre criadores e que ficou conhecido como ‘A Guerra do Condado de Lincoln’. Garrett por sua vez passou para o lado da lei e uma das incumbências que recebeu como xerife foi a de fazer o ex-amigo sumir da região, sair do país ou até mesmo matá-lo se isso fosse necessário. Autoridades como o Governador Lew Wallace (Jason Robards) e investidores queriam ver o Novo México sem a ameaça que Billy the Kid representava. Considerando a antiga amizade, Garrett orienta Billy a fugir para o México mas diante da recusa passa a persegui-lo, emboscando-o e o prendendo. Billy consegue escapar matando dois guardas e reencontra seu bando em Fort Sumner, mesmo sabendo que Garrett está em seu encalço. Billy se descuida e após um encontro amoroso com Maria (Rita Coolidge) é morto por Pat Garrett. Este por sua vez é emboscado e morto 28 anos depois por um homem que anuncia estar vingando a morte de Billy the Kid.

Acima Sam Peckinpah com James Coburn e
Kris Kristofferson; abaixo L.Q. Jones
Desastre anunciado - Incontáveis vezes a lendária figura de Billy the Kid foi levada ao cinema e a mais respeitada (pela crítica) das versões foi a de 1957 dirigida por Arthur Penn e intitulada “Um de Nós Morrerá” (The Left-Handed Gun). Com a dinheirama disponibilizada pela MGM e o magnífico elenco reunido nenhuma dúvida havia que Peckinpah realizaria o definitivo filme sobre William Bonney, assim como ninguém duvidava que Sam criaria, como de hábito, problemas durante as filmagens em Durango no México. Havia sido assim em praticamente todos os filmes anteriores de Peckinpah, especialmente com “Juramento de Vingança” (Major Dundee) que foi destruído pela Columbia Pictures e renegado por Peckinpah. Em 1972, aos 47 anos o discutido diretor estava bebendo mais do que nunca, assustando até mesmo seus amigos mais próximos como L.Q. Jones que atua em “Pat Garrett & Billy the Kid”. Depoimento de James Coburn relata que Sam começava a beber pela manhã e às três da tarde, todos os dias, estava em estado deplorável, mal conseguindo andar ou falar. Sam trabalhava, quando muito, três, no máximo quatro horas por dia e mesmo assim piorando a cada momento, ingerindo litros de vodka ou gim. A MGM cogitou substituir Peckinpah mesmo com muito dinheiro já investido no filme, mas todos sabiam que o elenco se rebelaria solidário a Sam e o prejuízo seria ainda maior. Gordon Dawson, constante assistente de direção de Peckinpah e amigo do diretor foi quem filmou muitas sequências para não atrasar mais ainda a produção. Só mesmo um milagre poderia salvar “Pat Garrett & Billy the Kid” do desastre completo.

Kris Kristofferson,
Rita Coolidge e Bob Dylan.
A música de Dylan – Desde o início do projeto Sam Peckinpah definiu James Coburn como Pat Garrett e para interpretar Billy the Kid, que foi dado como morto aos 21 anos de idade, Kris Kristoferson parecia uma boa opção apesar dos 36 anos do ator. Compositor com alguns sucessos no momento, Kristofferson apresentou seu amigo Bob Dylan a Peckinpah que pediu a Dylan uma canção falando de Billy the Kid, entregando-lhe uma sinopse do filme. Sem demora Bob fez uma música, quilométrica como era seu estilo, narrando em tom elegíaco o fim de Billy the Kid. A bela canção tinha muitas palavras em Espanhol e Peckinpah, apaixonado pelas coisas do México, gostou tanto que pediu a Dylan para compor toda a parte musical do filme. Além disso o convidou para uma pequena participação como ator, o que por certo arrastaria aos cinemas os numerosos fãs do cantor-compositor, expoente maior da contracultura musical. Quem não deve ter gostado nada foi Jerry Fielding que normalmente musicava os trabalhos de Sam. Rita Coolidge, também cantora e Donnie Fritts, compositor, foram igualmente agregados ao elenco, o que deixou o filme de Peckinpah com jeito de western-Woodstock. A história de Rudolph Wurlitzer pouco tinha de original e o roteiro não era dos mais inspirados o que levou Peckinpah a reescrever muitos dos diálogos. Durante as filmagens as músicas que Bob Dylan foi apresentando foram determinantes para a atmosfera melancólica, lúgubre mesmo do filme, ainda que o diretor tenha propositalmente concebido um western lento e triste que em momentos descamba para a pura monotonia.

Acima Jack Elam e Kris Kristofferson;
abaixo Slim Pickens e James Coburn.
Fragmentação desnecessária - A MGM queria que “Pat Garrett & Billy the Kid” fosse lançado com 95 minutos de duração, mas aceitou os 103 minutos vistos nos cinemas. Observou-se quase unanimemente que faltavam ao filme algumas sequências que provavelmente ficaram na sala de edição (o filme teve o número recorde de seis montadores). Posteriormente circulou uma versão em vídeo, tida como restaurada, com 122 minutos mas ainda assim este western de Peckinpah não conseguiu agradar apesar dos inegáveis bons momentos que apresentava em meio a outros que deixavam a desejar. Veio em 2005 a versão com 115 minutos restaurada pela Turner, que seria a mais próxima daquilo que Peckinpah queria ver exibida e mesmo essa versão não pode ser comparada aos melhores trabalhos do diretor. O pecado maior de “Pat Garrett & Billy the Kid” é o excesso de episódios desnecessários que criam hiatos no desenvolver da trama principal que é a relação entre Garrett e Kid. Muitos atores de renome, entre eles Katy Jurado, Jack Elam, Emílio Fernandez, Jason Robards, Barry Sullivan, Chill Wills, Gene Evans e Richard Jaeckel (com uma horrível peruca), participam do filme em sequências aparentemente construídas especialmente para justificar suas presenças no elenco, presenças forçadas e quase sempre prescindíveis. Paradoxalmente a sublime sequência com Katy Jurado e Slim Pickens e a da morte de Jack Elam são os pontos altos do filme, ao lado da sequência que tem a participação de R.G. Armstrong e Matt Clark quando da fuga de Billy the Kid da prisão.

Kris Kristofferson com Emílio Fernández e Bob Dylan;
James Coburn e Jason Robards.

Peckinpah em cena com James Coburn;
abaixo R.G. Armstrong e James Coburn
Apreço imerecido - O epílogo com a morte de Billy, que poderia redimir o langoroso ritmo de “Pat Garrett & Billy the Kid”, é decepcionante, frio, sem força e termina pateticamente com Garrett atirando contra o espelho no qual se enxerga após matar Kid. Obviamente Garrett seria o alter-ego de Peckinpah que freudianamente tenta expiar seus pecados. Billy the Kid se tornou uma lenda, enquanto seu matador passou para a história apenas como coadjuvante. Desde o início do filme, porém, fica claro que para Peckinpah a figura de Garrett com seu dilema pessoal é mais interessante que a de William Bonney, a quem se atribui 21 mortes, uma para cada ano que viveu. O Garrett de Peckinpah tinha admiração pelo desapego de Billy à vida e tinha ainda um apreço imerecido (e historicamente equivocado) pelo pistoleiro que matava friamente suas vítimas ignorando qualquer ética de enfrentamento. É assim que mata Alamosa Bill (Jack Elam) num duelo em que Alamosa conta só até oito ao invés de dez e depara-se com Kid virado desde a contagem ‘três’ e pronto para disparar contra o oponente. É quando ouve-se uma das melhores frases do filme com Alamosa Bill antes de morrer dizendo “Eu nunca soube contar muito bem...” Ao contrário de Billy que vive intensamente, Garrett não deixa de lembrar que quer envelhecer com seu país, terra que está sempre crescendo. Peckinpah prefere ainda ignorar o fato verídico de Garrett ter ido cobrar do Governador Wallace os 500 dólares de recompensa pela morte do ex-amigo.

Katy Jurado e Slim Pickens
Os tempos estão mudando... - “Pat Garrett & Billy the Kid” contém alguns dos diálogos mais sem sentido que um western sério poderia ter e o diálogo entre Garrett e o sheriff McKinney (Richard Jaeckel), assim como as últimas palavras do agonizante Paco (Emílio Fernández) são exemplares nonsense. Jamais se viu alguém prestes a morrer se expressar com voz tão firme quanto a de El Índio Fernández. Talvez para agradar Bob Dylan ou influenciado pela presença do grande poeta do rock, o filme traz frases como ‘how do you feel?’ e ‘the times they’re changing’, pinçadas de algumas de suas imortais canções. Nenhum erro de continuidade, diálogo risível ou equívoco factual, no entanto, neste western chega próximo à improvisadamente expandida participação de Bob Dylan. Arremedo de ator, sua pouco carismática figura na tela chega a ser constrangedora. Ainda bem que Dylan não insistiu nessa carreira. James Coburn domina todo o filme com sua presença sólida e intensa, enquanto Kristofferson está bem como Kid. No enorme elenco de coadjuvantes brilham Slim Pickens, Katy Jurado, R.G. Armstrong (eterno como fanático sempre pronto a matar em nome da Bíblia) e Jack Elam. Uma pena o desperdício de Bruce Dern, Gene Evans e Jason Robards em pontas irrelevantes. Este western foi tão mutilado que os créditos indicam as presenças de Elisha Cook Jr. e Dub Taylor que não aparecem no filme.

Kris Kristofferson e Bob Dylan;
James Coburn com Rutanya Alda (à direita)
Filme imperfeito - “Pat Garrett & Billy the Kid” foi concluído em 71 dias, 21 dias acima do planejado e o custo final atingiu 4,6 milhões de dólares, valores nunca recuperados inteiramente com as bilheterias. A paciência da MGM perdurou porque, como esperado, “Os Implacáveis” foi um estrondoso sucesso de bilheteria e havia a esperança que isso se repetisse com o novo western de Peckinpah. Hoje “Pat Garrett & Billy the Kid” é lembrado como o filme que tinha “Knockin’ on Heaven’s Door” em sua trilha musical, canção que virou sucesso através das gravações de Eric Clapton e anos depois com o Guns and Roses. Mas a principal canção é “Billy the Kid”, ouvida nos créditos e várias vezes durante o filme. Apesar dessas magníficas composições, a trilha musical de Dylan é desigual, até mesmo por não ser ele um compositor de música incidental. Não são poucos os que consideram “Pat Garrett & Billy the Kid” uma obra-prima, o que é um exagero para um filme tão imperfeito. Ainda assim, deve ser visto por ser a abordagem de um dos grandes diretores do gênero a respeito de Billy the Kid, a quem o cinema ainda deve um filme à altura da lenda que envolve a vida de William Bonney.

Sam Peckinpah e Bob Dylan; Kriss Kristofferson e James Coburn


A cópia de "Pat Garrett & Billy the Kid" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Thomaz Antônio de Freitas Dantas.

17 de janeiro de 2017

FLECHAS DE FOGO (BROKEN ARROW) – WESTERN QUE RESPEITOU OS APACHES


Robert Taylor; Richard Dix
“Flechas de Fogo”, dirigido por Delmer Daves, é geralmente considerado o precursor dos westerns que trataram os índios com dignidade. Porém é importante ressaltar que “A Passagem do Diabo” (Devil’s Doorway), de Anthony Mann com Robert Taylor foi filmado praticamente ao mesmo tempo de “Flechas de Fogo” e igualmente mostra os nativos norte-americanos de modo simpático, ambos os filmes rodados em 1949 e somente lançados em 1950. O público havia se acostumado com a espécie de lavagem cerebral que o cinema praticava colocando os índios sempre como vilões cujas mortes se faziam necessárias para conter a selvageria dos peles-vermelhas. Outro registro digno de nota é lembrar que muito antes Hollywood já rompera com o provérbio atribuído ao General Philip Sheridan que ‘O único índio bom é um índio morto’. Em 1925 Richard Dix como o índio ‘Nophaie’ estrelou “Alma Cabocla” (The Vanishing American) e em 1932 foi a vez de “O Fim da Trilha” (The End of the Trail), com Tim McCoy mostrar os índios com simpatia. O mesmo ocorreu claramente em “O Intrépido General Custer” (They Died with their Boots On) e em “Sangue de Heróis” (Fort Apache), respectivamente de 1941 e 1948 e dirigidos por Raoul Walsh e John Ford e nos quais sem condescendência os nativos são vistos como bravos guerreiros dignos de respeito. Mas foi sem dúvida o western de Delmer Daves que originou a série de filmes revisionistas que mudou a visão histórica do cinema sobre os índios.


James Stewart com Jeff Chandler
e com Jay Silverheels (abaixo).
Conhecendo melhor os Apaches - O roteiro de “Flechas de Fogo”, de autoria de Albert Maltz, baseou-se na história “Blood Brother”, escrita por Elliott Arnold contando como se deu a amizade entre Tom Jeffords (James Stewart) e o chefe Apache Cochise (Jeff Chandler). Jeffords é um ex-oficial da União que cavalga pelo Arizona em busca de ouro ou prata. Encontra um jovem índio ferido e cuida dele, salvando-o da morte certa e isto faz com que Jeffords consiga chegar até Cochise com quem faz amizade. Entre os Apaches Jeffords se enamora de Sonseeahray (Debra Paget), com quem vem a casar com o consentimento de Cochise. Jeffords passa a se empenhar pela paz entre Apaches e os homens brancos, o que interessa a Washington que envia ao Arizona o General Oliver Howard (Basil Ruysdael) para essa missão pacificadora. Cochise é partidário de acordo que sele a paz definitiva, mas ocorre que tanto do lado dos Apaches como dos brancos invasores de seus territórios há grupos contrários ao acordo. Jerônimo (Jay Silverheels) lidera o rompimento com Cochise promovendo ataques a diligências e roubo de gado, enquanto Ben Slade (Will Geer) comanda brancos insatisfeitos que querem a morte de Cochise. Sonseeahray morre numa emboscada preparada para matar Cochise, morrendo também Slade, ficando o exemplo deixado por Jeffords e Cochise apontando que a paz seria sim possível.

Will Geer, Jeff Chandler e James Stewart
A paz suspeita - Albert Maltz foi um dos dez roteiristas que entraram para a lista negra do Macarthismo, sendo preso e proibido de trabalhar. Antes disso deixou pronto o roteiro de “Flechas de Fogo” que corajosamente foi produzido por David O. Selznick para a 20th Century-Fox, chocando inicialmente público e crítica ao mostrar a cultura Apache, seus valores e nobreza de caráter através do chefe Cochise. Indispondo-se com parte de seus bravos que não aceitavam a paz pois ela não vingava os milhares de irmãos mortos pelos brancos, Cochise entendia que a continuidade da luta fatalmente levaria os Apaches à extinção. Para ele a paz era a única saída, ainda que os gananciosos invasores das terras onde viviam os nativos, com a ajuda da Cavalaria, trouxessem dúvidas se aquela seria mesmo a melhor opção. A amizade com Tom Jeffords e mais tarde com o General Howard, também chamado ‘General Bible’ (Bíblia), fez com que Cochise decidisse pela paz. Repleto das melhores intenções, o western de Daves não consegue levar às últimas consequências um dos aspectos mais importantes do filme que é a miscigenação que ocorreria com o casamento entre Tom Jeffords e a jovem índia Sonseeahray. Consumado o enlace segundo o ritual Apache, mesmo com um discurso sobre a temeridade da união que jamais seria aceita pelos brancos, Sonseeahray vem logo a ser morta, o que atenua a força do roteiro. Em “Renegando Meu Sangue” (Run of the Arrow), que Samuel Fuller dirigiu em 1957, o personagem de Rod Steiger se casa com a índia Sioux interpretada por Sara Montiel (quem não se casaria), com ela ficando ao final do filme. Mas talvez isto demorasse mais a acontecer se “Flechas de Fogo” não tivesse abordado esse difícil tema.

James Stewart e Basil Ruysdael

Jeff Chandler
O Cochise do moreno Jeff Chandler - Quase inteiramente filmado nas belas paisagens do Arizona, a fotografia é um dos pontos altos deste western, ao lado da eficiente música de Hugo Friedhofer pontuando as ações. As sequências envolvendo confrontos entre Apaches e brancos se resumem a rápidas emboscadas praticadas por renegados índios e homens brancos de má índole. Cochise mesmo é mostrado como homem sábio, ponderado e longe de ser um guerreiro e isso é evidenciado pela imutável expressão de Jeff Chandler, filmado muitas vezes de baixo para cima para melhor afirmar sua grandeza de chefe Apache. Chandler personifica um dos Apaches mais ‘clean’ que o cinema mostrou, contrastando mesmo com James Stewart, este ainda não o homem do Oeste perfeito que se tornaria na excepcional quina de westerns em que atuou sob a direção de Anthony Mann nessa mesma década. Jeff Chandler, novaiorquino filho de judeus e que curiosamente tinha pele morena, voltaria a interpretar Cochise no filme “O Levante dos Apaches” (The Battle at Apache Pass), em 1952, antes de se tornar um dos galãs preferidos de Hollywood. Indicado para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por sua interpretação como o chefe Apache, Chandler perdeu o prêmio para George Sanders (“A Malvada”) e o que intriga é que Chandler como Cochise mantém durante todo o filme o mesmo semblante, sem nenhum momento de maior dramaticidade. “Flechas de Fogo” concorreu ainda nas categorias de Melhor Roteiro (Albert Maltz) e Melhor cinematografia (Ernest Palmer), perdendo em ambas e seria inimaginável a Academia premiar, em 1951 a um ‘blacklistado’ como Maltz.

Debra Paget com James Stewart
Casamento Apache - O romance neste western pró-índio se passa entre James Stewart (com sua já inseparável peruca aos 41 anos de idade) e a ainda adolescente Debra Paget no frescor dos seus 16 anos de idade e como não poderia deixar de ser, romance pouco convincente. Muito bonita, Debra sorri o tempo todo iluminando a tela com sua beleza e apenas isso. Uma pena que justamente essa subtrama, que poderia ser até mais importante que o tema principal do filme, tenha um desfecho imposto pela moral então vigente em Hollywood, moral que não aceitaria ver um de seus mais representativos astros ser parte de uma provocativa miscigenação. As sequências de romance entre Stewart e Debra, incluída a cerimônia de casamento Apache, são para dizer o mínimo, mornas. Com um elenco de apoio com coadjuvantes do nível de Arthur Hunnicutt, John Doucette e Will Geer, o filme os desperdiça em aparições pequenas, no caso de Hunnicutt e Doucette insignificantes mesmo. Menos mal o aproveitamento de Jay Silverheels quando se preparava para assumir a identidade de ‘Tonto’ na série ‘The Lone Ranger’ para a TV. O canadense Silverheels tem rara oportunidade de uma interpretação dramática como Gerônimo, o Apache que não aceita a submissão de Cochise às propostas de paz dos bracos.

Jay Silverheels; Debra Paget e James Stewart

Delmer Daves
Estimado clássico pró-índio - Por abordar diretamente um tema quase ignorado pelo cinema norte-americano que é mostrar o índio e sua cultura de modo respeitoso e os brancos como vilões verdadeiros na História, “Flechas de Fogo” merece a importância adquirida e ter se tornado um clássico no gênero. Gerou inclusive uma série de TV intitulada “Cochise” protagonizada por Michael Ansara e com John Lupton como Tom Jeffords, série que ficou no ar por três temporadas. Os anos e westerns seguintes reservavam tanto para Delmer Daves como para James Stewart filmes melhores que este bom e bastante estimado “Flechas de Fogo”.


1 de janeiro de 2017

QUELÉ DO PAJEÚ, O DESAPARECIDO NORDESTERN DE ANSELMO DUARTE


Lima Barreto e
Anselmo Duarte
Lima Barreto, o cineasta, era também escritor e um de seus livros foi “Quelé do Pajeú”, que Lima tencionou levar ao cinema. Excêntrico e de temperamento difícil, o que se refletiu em dificuldades de produção em todos seus projetos inclusive no bem sucedido artística e comercialmente “O Cangaceiro”, Lima Barreto viu fracassar a tentativa de transformar “Quelé do Pajeú” em filme. Escreveu o roteiro e com ele debaixo do braço saiu em busca de financiamento, mas aos 63 anos de idade e cada vez mais irascível, viu todas as portas se fecharem. O roteiro de Lima Barreto chegou às mãos de Anselmo Duarte que leu e imediatamente se interessou em filmá-lo, impondo a condição de fazer algumas alterações na história, com o que a princípio Lima concordou. O terceiro filme de Anselmo Duarte, “Veredas da Salvação” (1965) não havia repetido o êxito comercial de “O Pagador de Promessas”, mas mesmo assim Anselmo conseguiu apoio financeiro de pessoas físicas e jurídicas. Além do Instituto Nacional do Cinema (INC), nada menos que sete bancos decidiram investir no projeto, assim como gente conhecida como o colunista social Ibrahim Sued e o crítico carioca Carlos Fonseca. Com um bilhão de cruzeiros para seu novo projeto, Anselmo Duarte não teve dificuldades em contratar Tarcísio Meira, já então mais famoso galã da televisão e a atriz Izabel Cristina (que mudou o nome para Guy Loup) igualmente conhecida, além de Jece Valadão e Rossana Ghessa para os principais papéis. Lima Barreto pretendia filmar “Quelé do Pajeú” no sertão pernambucano buscando maior autenticidade, mas Anselmo levou a equipe para a sua cidade natal, Salto de Itú, uma espécie de Alabama Hills cabocla, onde o filme foi quase inteiramente rodado.


Tarcísio Meira e Elizângela Vergueiro;
Tarcísio com Rossana Ghessa.
Juramento de vingança - O nome de Lima Barreto consta nos créditos como autor da história e co-roteirista, mas Lima deu várias entrevistas mostrando-se inconformado com as alterações feitas por Anselmo Duarte que teriam desvirtuado seu texto original. No filme Quelé do Pajeú é o apelido dado pelo Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião (Luiz Alberto Meirelles), ao vaqueiro Clementino Celidônio (Tarcísio Meira) que certo dia retorna para casa e se depara com uma tragédia. Um forasteiro com uma cicatriz na testa e sem o dedo mindinho da mão direita após agredir a mãe de Clementino (Anita Isbano) violenta sua irmã Marizolina (Elisângela Vergueiro). Quelé jura vingança e sai à procura do desconhecido e entre as pessoas que encontra nessa busca está Maria Rita (Izabel Cristina) e o bando de Lampião. Mais tarde Quelé conhece a jovem Maria do Carmo (Rossana Ghessa) que por ele se apaixona e que passa a acompanhá-lo. Finalmente Quelé se depara, na cidade de Imbé, com Cesídio da Costa (Jece Valadão), o homem que desgraçara sua família, justamente no dia em que Cesídio vai se casar. Quelé faz o noivo seu prisioneiro e o obriga a acompanhá-lo até seu sítio em Pajeú das Flores, bem como um padre (Sergio Hingst) a quem ordena que case Cesídio com Marizolina que engravidara após o estupro sofrido. Em Imbé Quelé havia matado um cabo ao se defender da polícia local e é perseguido por uma patrulha. A milícia cerca seu sítio mas Quelé, ajudado por Cesídio, defende-se trocando tiros com a força policial. Cesídio morre no tiroteio e Quelé está prestes a ser morto quando surge um bando de cangaceiros comandado por Lampião dizimando a milícia. Sabedor que será procurado pela Justiça, Quelé se torna mais um cabra do bando de Lampião, vendo Maria do Carmo, grávida de seu filho, ser morta por um tiro disparado pelos ‘macacos’ de uma volante.

Jece Valadão; Luiz Alberto Meireles e
Jorge Karam.
O nordestern de Anselmo Duarte - Em suas pesquisas sobre o cangaço, Lima Barreto descobriu que existiu um pernambucano chamado Clementino Furtado, apelidado de Quelé, e que após ter participado do bando de Lampião, tornou-se policial. Atingindo o posto de sargento, Quelé foi um dos mais tenazes perseguidores de cangaceiros, comandando uma volante conhecida como ‘Coluna Pente Fino’, responsável pelo extermínio de dezenas de cangaceiros. Sargento Quelé, que era lembrado como ‘a valentia em pessoa’ veio a falecer de morte natural em 1955 e inspirou Lima Barreto a criar o personagem protagonizado por Tarcísio Meira. No mesmo ano em que foi produzido “Quelé do Pajeú’, Glauber Rocha filmou seu “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, ambos autênticos nordesterns, ou seja, faroestes ambientados no sertão nordestino mas com diferentes pretensões estéticas. Glauber, que viajava bastante, conhecia a nova linguagem dos westerns produzidos na Europa, cujos expoentes eram Sergio Leone e Sergio Corbucci. Anselmo Duarte, por seu lado, tinha “O Cangaceiro” e o ciclo que se desenvolveu posteriormente sobre o cangaço, como modelos para seu novo filme. Glauber era uma espécie de unanimidade para a crítica, sendo seu novo filme com o personagem Antônio das Mortes saudado como obra de gênio. Sem a mesma repercussão na imprensa, Anselmo Duarte com “Quelé do Pajeú” realizou um dos melhores exemplares do gênero nordestern.

Rossana Ghessa, Sergio Hingst, Jece Valadão e
Tarcísio Meira; Luiz Alberto Meireles;
Desafio à ditadura militar - Tecnicamente muito bem produzido, sendo o primeiro filme nacional em 70 mm e som estereofônico, “Quelé do Pajeú” reafirma o inegável talento de seu diretor. Anselmo imprimiu ritmo quase perfeito à odisseia de Quelé na consecução de sua vingança, alternando cenas de ação, romance e sensualidade sem deixar de observar os aspectos religiosos, mesmo o fanatismo tão comum ao homem simples. A história ganha nuances que desafiam os costumes tidos como normais a exemplo da inusitada vingança de Quelé ao obrigar Cesídio, retirado do altar de uma igreja em seu casamento, para se casar com sua irmã, o que é visto com naturalidade por todos. Mesmo Cesídio tem direito a explicar que nada demais fez a não ser cumprir seu dever de macho e ninguém melhor que Jece Valadão para usar essa tese. Sem qualquer compromisso com a defesa da ordem legal, cangaceiros são mostrados simpaticamente, dividindo com o povo o produto dos saques praticados, ainda que por vezes pratiquem alguns excessos abusando de suas vítimas. Nunca mostrados como bandidos, mas sim como gente alegre, valente e justa, os cabras liderados pelo Capitão Virgulino Ferreira vencem sempre as forças policiais organizadas fazendo de “Quelé do Pajeú” um filme desafiador no mais grave momento da ditadura militar no Brasil. Ao final, vendo sua mulher grávida ser morta pelas forças do governo, Quelé segue sua vida ao lado dos cangaceiros em busca de justiça social. Ainda bem que os rigorosos censores cochilaram e o filme de Anselmo Duarte foi exibido normalmente, por algum tempo...

Tarcísio Meira e Jece Valadão
Sequências antológicas - O maior defeito de “Quelé do Pajeú”, por sinal comum em nosso cinema, é transformar pessoas simples em filósofos capazes de expressar frases de grande profundidade. Quelé fala só o suficiente e no linguajar típico de sua gente, mas outros personagens como Maria do Carmo, Cesídio, Maria Rita e até o guarda do quarteirão (Simplício) são cansativos com suas falas recheadas de alcance psicológico quando não metafísico. Queixosa com a quase mudez de Quelé, Maria do Carmo lhe diz: “Já não basta o silêncio do deserto que parece sem vida...”. Se Anselmo Duarte não soube evitar esse tipo de armadilha, por outro lado apresenta em seu filme sequências que merecem fazer parte de qualquer antologia do nosso cinema. Maria do Carmo rejeitada por Quelé monta o cavalo e se excita durante a cavalgada até atingir o orgasmo numa sequência de extraordinária beleza e sensualidade. A luta entre Quelé e Cesídio, inicialmente com facão e punhal, depois com pedaços de madeira e terminando com punhos é excepcionalmente bem coreografada e sem o uso de dublês, em outro momento supremo deste filme. Quelé demonstrando sua coragem e Lampião aceitando o desafio e arriscando a vida “...seja o que Deus quiser...” para reafirmar sua macheza é também uma sequência admirável.

Rossana Ghessa

Geraldo Vandré e Izabel Cristina
Trilha sonora inferior - A trilha sonora musical de “Quelé do Pajeú” foi composta por Marconi Campos, Hilton Acioli e Théo de Barros, sendo executada pelo Trio Marayá, formado por Marconi, Hilton e Behring Leiros, todos maranhenses. Esses músicos acompanharam Geraldo Vandré nas apresentações das canções “Disparada” e “Ventania”, que Vandré levou aos festivais da TV Record. Porém as canções utilizadas no filme não possuem a força destas citadas ou de outras compostas por Vandré, deixando o espectador durante o filme todo à espera de uma canção mais vigorosa, o que não ocorre, não propiciando, assim, maior força dramática às imagens capturadas pelo cinegrafista José Rosa. Uma pena mesmo, ainda mais porque consta que Geraldo Vandré tenha participado como ator sem que possa ser identificado com maior certeza. Essa e muitas outras dúvidas cercam “Quelé do Pajeú”, dúvidas que infelizmente não podem ser esclarecidas visto que a maior parte dos participantes desta produção já faleceu. A atriz Isabel Cristina, ou Guy Loup, que há anos reside na França, seria uma fonte fidedigna, assim como o próprio Vandré e Rossana Ghessa.

Tarcísio Meira; Simplício e Izabel Cristina.
Tarcísio Meira como sertanejo - Aos 34 anos Tarcísio Meira protagonizou brilhantemente o personagem principal deixando longe sua imagem de galã para interpretar o sofrido Quelé. Jece Valadão igualmente excelente não precisando se esforçar muito para compor mais um canalha na extensa galeria de tipos que viveu no cinema, se bem que seu personagem Cesídio termina por se redimir e lutar ao lado de Quelé. A linda Rossana Ghessa, italiana de nascimento, era uma resposta do cinema brasileiro a Claudia Cardinalle e sai-se bem como Maria do Carmo, personagem completamente diferente das tantas que se acostumou a interpretar mas com igual poder de sedução. E sensualidade é o que não falta também à bonita Izabel Cristina, em papel menor. Elizângela, aos 14 anos é Marizolina, ela que teve seu auge como mulher sensual nas novelas nacionais. Sergio Hingst, eficiente como de hábito completa o elenco central que tem um Lampião alourado e sem os óculos característicos. Jorge Karam é um dos cangaceiros e Simplício (Francisco Flaviano de Almeida) tem participação pequena mas cansativa o suficiente superatuando desnecessariamente. Anselmo Duarte era muito bom na direção de atores mas acabou deixando Simplício se exceder. Regina Duarte paris, a filha de Anselmo Duarte faz uma ponta como a noiva de Cesídio.

Rossana Ghessa, Elizângela Vergueiro, Jorge Karam e Sergio Hingst

Tarcísio Meira; Tarcísio e Rossana Ghessa.
Filme descoberto 40 anos depois - Uma vinheta do Canal Brasil diz assim: “O que seria do Brasil sem... o Canal Brasil”. De fato, haveria uma lacuna impossível de ser preenchida pois entre as dezenas e dezenas de produções nacionais rodadas sob os auspícios da Lei Rouanet, o Canal Brasil nos presenteia com um filme como “Quelé do Pajeú” e outros clássicos do nosso cinema. Nossa produção cinematográfica sempre lutou por espaço nas salas exibidoras, como foi o caso deste filme de Anselmo Duarte que permaneceu por seis semanas em cartaz no Cine Windsor. Já a imensa maioria das dezenas (ou centenas) de filmes que o Brasil produz neste novo século são exibidos apenas nas madrugadas do Canal Brasil. A incúria dos donos da nossa cultura permitiu que “Quelé do Pajeú” fosse dado como desaparecido por 40 anos pois não se sabia da existência de uma única cópia sequer. E disso se aproveitou bem Anselmo Duarte que gostava de dizer que seu melhor filme era exatamente “Quelé do Pajeú”, aquele que ninguém mais podia assistir. E uma lenda se criou em torno dessa obra até que um certo Paulo Wenceslau Duarte, descobriu na Europa uma cópia em muito bom estado. Essa cópia foi a exibida na Itália pois contém legendas em Italiano e, ainda bem, foi resgatada e apresentada como presente de Natal em 2016 pelo Canal Brasil. Anselmo Duarte estava certo ao falar bem de “Quelé do Pajeú”, um grande filme, sem dúvida, mas aquém da poética simplicidade de sua obra-prima “O Pagador de Promessas”.

17 de dezembro de 2016

DESBRAVANDO O OESTE (THE WAY WEST) - UM ÉPICO QUE NÃO INTERESSOU AO PÚBLICO


Acima o autor A.B.Guthrie Jr. abaixo Andrew
V. McLaglen, Harold Hecht e Kirk Douglas.
Foi, talvez, de Jack Elam o melhor comentário sobre este filme, quando disse: “Foram tão árduas as filmagens de ‘Desbravando o Oeste’ que me deu uma profunda tristeza ler as críticas, quase todas negativas, e ver o público ter fugido do filme. Enquanto filmávamos achávamos que seria um daqueles filmes inesquecíveis e de grande sucesso...” Quando publicado em 1949, “The Way West”, de autoria de A.B. Guthrie Jr., foi premiado com o Prêmio Pulitzer e passou a ser disputado por produtores de Hollywood pois todos apostavam que aquele seria o maior épico do gênero western. Quem ganhou a briga pelos direitos cinematográficos foi a Hecht-Lancaster, produtora do grande ator que vinha realizando uma série de excelentes filmes. Só com o roteiro encomendado a Clifford Oddets foram gastos meio milhão de dólares e no projeto para o filme Burt Lancaster teria a companhia de James Stewart e Gary Cooper. Ambos, porém, com a agenda cheia e pelas dificuldades que se avizinhavam nas locações logo desistiram. “The Way West” dormiu nas prateleiras até que o império que Lancaster chegou a construir ruiu e o ex-cobiçado roteiro acabou nas mãos de Harold Hecht quando a sociedade com Lancaster foi desfeita. Somente em 1966 Harold Hecht conseguiu reunir o dinheiro necessário para produzir o sonhado épico, nada menos que cinco milhões de dólares, muito dinheiro naquele tempo. Novo roteiro foi concebido, desta vez de autoria de Ben Maddow (“O Segredo das Jóias” e “Johnny Guitar”), Andrew V. McLaglen, foi chamado para dirigir e o trio central foi formado por Kirk Douglas, Robert Mitchum e Richard Widmark.


Belíssima imagem da caravana rumo ao
Oregon; Kirk Douglas e Robert Mitchum.
A caminho do Oregon - Assim como outros autores renomados, A.B. Guthrie Jr. preferiu se afastar de Hollywood, ele que chegou a escrever os roteiros de “Os Brutos Também Amam” (Shane) e “Homem Até o Fim” (The Kentuckian), após o que se dedicou a completar os seis episódios de sua grande obra sobre a conquista do Oeste norte-americano. “The Way West”, o segundo livro da saga foi levado ao cinema depois de “Rio da Aventura” (The Big Sky), filme de Howard Hawks de 1952 estrelado por Kirk Douglas. No Brasil “The Way West” teve o título “Desbravando o Oeste”, sendo filmado inteiramente em locações, a maior parte no Oregon, com algumas poucas sequências bem mais amenas rodadas em Tucson, Arizona. Conta como um grupo de centenas de colonos parte, em abril de 1943, da cidade de Independence (Missouri) para tentar chegar pioneiramente uma espécie de terra prometida, no Oregon. Lidera a caravana o ex-Senador William J. Tadlock (Kirk Douglas), que contrata como guia o experiente Dick Summers (Robert Mitchum). Aos obstáculos naturais somam-se aqueles surgidos pelo convívio do não heterogêneo grupo e entre estes está Lije Evans (Richard Widmark) que cedo se indispõe com a forma autoritária e por vezes cruel de Tadlock conduzir a caravana. Após encontros com índios e inúmeras mortes, entre elas a do próprio Tadlock, os colonos chegam afinal ao seu objetivo, passando à história como verdadeiros desbravadores do Oeste.

Filme mutilado - Andrew V. McLaglen queixou-se em entrevista no ano 2003 que Harold Hecht e a United Artists cortaram 20 minutos iniciais de seu filme, prejudicando-o enormemente com isso. Pelo que se conhece dos 122 minutos de sua metragem original, qualquer acréscimo teria tornado “Desbravando o Oeste” ainda mais pesado. Tendo sido assistente de direção de William A. Wellman, Budd Boetticher e John Ford, McLaglen demonstra enorme competência nas difíceis sequências da infindável movimentação da caravana desde o Missouri até o Oregon. Porém, ao tratar dos conflitos humanos falta a McLaglen maior habilidade e o grandioso épico não produz a mínima emoção. Justo é dividir essa responsabilidade com os fracos diálogos de autoria de Ben Maddow e Mitch Lindemann, este produtor executivo que foi creditado como roteirista, sem falar em Kirk Douglas que, como de hábito, interferiu o quanto pode no trabalho do diretor com suas ‘sugestões’. Entre as muitas frases infelizes do roteiro temos esta do ex-Senador Tadlock que diz a Becky Evans (Lola Albright) na tentativa de conquistá-la: “Eu ressurgi como Sansão em sua cegueira...”. Não satisfeito Tadlock emenda: “Serei como uma torre para seu refúgio na nova cidade que construiremos”. À perplexa Becky só restou sair e correr para o marido Lije Evans, de quem não ouvirá clichês tão terríveis e o assédio do líder da caravana à mulher casada parou por aí mesmo em total inconsequência.
À direita alguns dos risíveis diálogos expressos por Kirk Douglas para Lola Albright.

Acima Michael Witney e Sally Field;
abaixo Katherine Justice entre Paul
Luthaker, Peggy Stewart e
Elizabeth Fraser.
Uma grande novela - Outra trama paralela é o envolvimento da atrevida jovem Mercy McBee (Sally Field) com Johnnie Mack (Michael Witney) homem casado com Amanda (Katherine Justice) uma mulher frígida e que o evita compulsivamente. O senhor Mack então cede à tentação que é possuir a jovem Mercy, engravidando-a e criando aquele que seria um enorme problema. Ocorre que Mack mata acidentalmente o filho de um chefe índio que providencialmente estava por perto disfarçado de lobo e cujo pai clama por vingança. Diante daquilo que parecia ser a reunião de todas as tribos de peles vermelhas no caminho do Oregon, Mack confessa o crime e é enforcado por Tadlock. Brownie Evans (Michael McGreevey) aceita se casar com Mercy e assumir a paternidade do filho bastardo que a moça gesta. Aduza-se a isso a emoção de, durante o casamento celebrado pelo pregador Weatherby (Jack Elam), ao ouvir o clássico ‘se alguém souber de algo contrário...’ a histérica viúva Amanda Mack denuncia a gravidez de Mercy. Têm-se a clara impressão de estar diante daquilo que os norte-americanos chamam de ‘soap-opera’, a nossa conhecida novelona de TV. Como a intenção era comover o espectador e dele arrancar lágrimas, o viúvo Tadlock ainda vê seu filho morrer num estouro de búfalos. Penitencia-se pedindo para ser chicoteado pelo negro Saunders (Roy Glenn) e diante de sequências trágicas como essas é que 122 minutos estão de bom tamanho para o filme de McLaglen.

Jack Elam; Lola Albright e Richard Widmark

Patric Knowles; Roy Barcroft
Pouco espaço para tantos coadjuvantes - Diálogos ruins e tramas ingênuas para não dizer banais, são compensadas com aquilo que “Desbravando o Oeste” tem de melhor que é mostrar com perfeição os rigores da longa jornada. Travessias de rio, de deserto e de cânion são esplendida e realisticamente capturadas pelas objetivas de William H. Clothier e é aí que Andrew V. McLaglen se supera e faz com que seu filme, apesar dos pesares, mereça ser visto. Os 20 minutos cortados da edição final de “Desbravando o Oeste” passam-se no encontro em Independence, ainda no Missouri, dos camponeses que almejam encontrar um dia a terra tão sonhada quanto distante. Portanto a penosa jornada está intacta e o que se perdeu foi uma melhor caracterização do enorme número de coadjuvantes que fazem parte da caravana e isso é realmente uma pena. Esmerou-se a produção em reunir um cast de qualidade que poucas oportunidades tem de mostrar seus talentos. Os irmãos Henry (Timothy Scott, Hal Lynch e John Mitchum) têm participação pequena, assim como Stubby Kaye, Roy Barcroft, Peggy Stewart, Nick Cravat, Roy Glenn e até mesmo Patric Knowles, o ‘Will Scarlett’ do Robin Hood de Errol Flynn que aparece quase num cameo. Sally Field, um tanto irritante, em sua estreia no cinema e a Lola Albright têm os principais papéis femininos. Nas poucas sequências em que aparece, Jack Elam comprova que era um especialista em roubar cenas.

Paul Luthaker, Peggy Stewart, Stubby Kaye e Elisabeth Fraser; à direita
Sally Field, Connie Sawyer e Lola Albright.

Mitchum, Widmark e depois Douglas - Algo que sempre foi bastante lembrado é Andrew V. McLaglen ter administrado bem as relações entre o trio central de atores. Embora nenhuma crise maior tenha sido noticiada, sabe-se que Kirk Douglas estava em fase de ego infladíssimo e tentou por todos os meios superar os demais com seu desempenho. Interpretando mais uma vez um tipo detestável (recentemente Douglas fez piada dizendo que viveu na tela tantos tipos sem caráter que estava pronto para interpretar... Donald Trump) Kirk se esmerou para compor o demagogo, visionário criador da ‘Oregon Liberty Company’. Para atingir seu intento o obcecado Senador William J. Tadlock  faz uso do que for necessário, mesmo de mentiras e seu passado não é muito claro sabendo-se apenas que seu comportamento teria levado sua esposa ao suicídio. Kirk monta, salta, luta, sofre e mesmo assim seu tipo ignominioso não supera Robert Mitchum esplêndido como sempre e apertando os olhos na briga particular contra a cegueira que acomete a visão do guia Dick Summers. E Douglas não fica nem com o segundo lugar de destaque pois este vai para Richard Widmark, igualmente excelente como sempre.


Fato histórico inspirador - A melhor explicação para o fracasso de “Desbravando o Oeste” talvez seja a própria concepção do filme. Destinado a ser mais um espetáculo edificante enaltecendo a inquebrantável coragem do povo norte-americano em seus projetos de construir uma grande nação, o filme de McLaglen tem como líder um homem desprezível. Além disso o dramalhão em que se transformam algumas situações, todas seguidas de mortes, conflitam com o escopo cinematográfico imaginado para a obra de A.B. Guthrie Jr. Como lembrou Jack Elam,  “Desbravando o Oeste” traz uma certa tristeza mesmo, especialmente pelos nomes importantes envolvidos e porque poderia ter sido o grande filme de Andrew V. McLaglen, um dos últimos diretores autênticos de westerns.