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19 de julho de 2012

O DISCRETO LANÇAMENTO DE “RASTROS DE ÓDIO” (The Searchers) NO BRASIL


Diferentemente de "Matar ou Morrer" e "Os Brutos Também Amam", westerns notáveis que o precederam e que ganharam imediato status de clássicos, "Rastros de Ódio" foi solenemente ignorado quando de seu lançamento. Ignorado pela quase totalidade da crítica e pelos membros da Academia de Artes de Hollywood, aquela que distribui os prêmios de melhores do ano para os filmes em diversas modalidades.


Acima Frank S. Nugent e Alan Le May;
abaixo Winton C. Hoch.
ZERO INDICAÇÕES - “Matar ou Morrer” recebeu sete indicações, vencendo em quatro modalidades (ator, edição, canção original e trilha sonora). “Os Brutos Também Amam” recebeu seis indicações e ficou com um único prêmio, o de melhor fotografia. Pois é, amigo, você que se a cada vez que revê “Rastros de Ódio” se deslumbra com os cenários naturais de Monument Valley, admiravelmente fotografados por Winton C. Hoch; você que se emociona com a interpretação de John Wayne, a melhor de toda sua carreira; você que jamais se esqueceu da inesquecível atuação de Ward Bond; você que gostou da estupenda música de Max Steiner e se enternece com a canção de Stan Jones tocada no início e ao final do filme; você que percebe que poucas vezes um western apresentou uma história tão inspirada (Alan Le May), contada por um roteiro perfeito (Frank S. Nugent); e finalmente você que considera “Rastros de Ódio” o melhor filme de John Ford, para muitos o maior diretor de cinema de todos os tempos, você sabe quantas indicações para o Oscar recebeu “Rastros de Ódio”? Isso mesmo, zero indicações.

O livro das quatro mil fotos; Clayton Moore,
The Lone Ranger;
cenário de "Rastros de Ódio".
INDIFERENÇA COM OS FAROESTES - Um excelente exemplo de como esse western de John Ford foi visto como um filme menor, é o livro “A New Pictorial History of the Talkies”, de Daniel Blum, volume com mais de quatro mil fotos de filmes e de artistas, editado em 1958 e reeditado em 1968. Esse belíssimo trabalho focaliza ano a ano os principais lançamentos do cinema norte-americano, tendo cada ano ilustrado com dezenas de fotos. No capítulo referente ao ano de 1956 o livro estampa fotos de 36 filmes produzidos naquele ano, lembrando até de “O Justiceiro Mascarado” (The Lone Ranger) e de “Ama-me com Ternura”, de Elvis Presley. Mas se esqueceu do faroeste de John Ford. E mesmo os franceses tão apaixonados por westerns também ignoraram “Rastros de Ódio” como pode ser constatado na Enciclopédia “Le Cinéma”, editada pela Larousse em 1968. Esse mamute de 400 páginas ricamente ilustrado desconhece a epopeia de Ethan Edwards passada no Monument Valley. Ora, se na terra do cinema e na Europa foi assim, aqui no Brasil não poderia ser diferente e a crítica cabocla dispensou a “Rastros de Ódio” a mesma indiferença que dispensava a faroestes de Randolph Scott, Audie Murphy, Rory Calhoun, Joel McCrea, George Montgomery, Dale Robertson e Guy Madison. É certo que todos esses queridos mocinhos fizeram muitos bons faroestes, mas estamos falando de clássicos, ou no caso de “Rastros de Ódio”, de uma obra-prima. O tempo, ajudado pelo crítico francês André Bazin, colocaram o western de John Ford no seu merecido lugar e vale à pena lembrar como foi o lançamento de “Rastros de Ódio” aqui no Brasil.

Publicidade em jornal de "Rastros de Ódio"
quando de seu lançamento em São Paulo.
NO BRASIL EM 1957 - Rodado entre 15 de junho e 15 de agosto de 1955, “Rastros de Ódio” foi lançado nos Estados Unidos em maio de 1956. Apesar do relativo sucesso obtido junto ao público, esse faroeste teve que esperar na fila para ser lançado em outros países o que aconteceu apenas no ano seguinte, como foi o caso do Brasil. Em São Paulo “Rastros de Ódio” foi lançado no dia 6 de março de 1957, uma quarta-feira, no Cine Marabá, que naquele tempo era lançador da Companhia Distribuidora Serrador. O Cine Marabá era um dos principais cinemas da Cinelândia Paulistana, situando-se em frente ao Cine Ipiranga, ambos cinemas lançadores. O Cine Marabá diferenciava-se dos demais cinemas lançadores por exibir filmes que o português Francisco Serrador sabia que não permaneceriam muito tempo em cartaz. Eram aqueles filmes para consumo rápido de grande parte da população paulistana, pessoas que tinham no cinema sua maior diversão. “Rastros de Ódio” foi lançado no Cine Marabá e simultaneamente em oito cinemas de bairros, todos eles cinemas de referência em suas regiões. Algumas semanas depois filmes como esse eram exibidos nos poeiras e nos cinemas do interior.

Acima o crítico e teórico francês Andé Bazin; abaixo
John Wayne, Lee Marvin e Richard Widmark, presentes
na tela do Cine Marabá em março-abril de 1957.
TRINCA DE GRANDES WESTERNS - O filme que precedeu o lançamento de “Rastros de Ódio” no Cine Marabá foi “Entre o Céu e o Inferno”, estrelado por Robert Wagner. “Rastros de Ódio” permaneceu duas semanas em cartaz no Cine Marabá, sendo substituído por “Sete Homens Sem Destino” (Seven Men from Now), o belo western de Budd Boetticher, estrelado por Randolph Scott, Lee Marvin e Gail Russell e produzido por John Wayne. Curiosamente, André Bazin que faleceu em 1958, reputou “Sete Homens Sem Destino”, “Rastros de Ódio” e “O Preço de um Homem” (The Naked Spur) como os três melhores westerns que Hollywood havia produzido no pós-guerra. O faroeste de Budd Boetticher ficou em cartaz também por duas semanas e seus posteres e lobby-cards foram retirados para dar lugar a “A Última Carroça”, excelente western de Delmer Daves, com Richard Widmark e Felicia Farr. Os fãs de faroestes naquele mês de março e início de abril de 1957 fizeram do Cine Marabá o seu reduto oficial e seria muito interessante saber o que pensavam desses três filmes. Descobrir quantos deles ficaram com a certeza de haver assistido a três grandes filmes do gênero, impressão que os críticos da época certamente não tiveram.

Página do jornal 'O Estado de S. Paulo' com publicidade de filmes no mês de
março de 1957. O grande sucesso era "A Dama e o Vagabundo", de Walt Disney.


ERRO DE CINEMIN - Lançado sem maior publicidade, “Rastros de Ódio” teve como apelo maior o nome de John Wayne, ator dos mais populares. Apesar dos quatro prêmios Oscar de melhor diretor que havia ganho, John Ford nunca foi muito conhecido do grande público, pelo menos como eram Cecil B. DeMille e Alfred Hitchcock. Era comum o espectador dizer que ia ao cinema assistir um filme de Elizabeth Taylor, ou de Clark Gable, ou de Marlon Brando. No entanto quando o filme era daqueles dois diretores, os cinéfilos falavam que iam ver um filme de Hitchcock ou um filme de DeMille. Por sinal ambos gostavam de aparecer em seus filmes. DeMille fazendo um preâmbulo e Hitch mostrando seu nada esbelto corpo, sempre de surpresa, entre um caláfrio e outro. A revista Cinemin (1.ª série), em seu número 67, de abril de 1957 publicou a quadrinização de “Rastros de Ódio”, estampando Ethan Edwards (John Wayne) na capa, isto quando o filme já havia sido lançado em São Paulo. O prestígio do filme era tão pequeno que o título na capa saiu erroneamente escrito “Rastos de Ódio”. Em 1993, ‘Cinemin’ relançou a publicação, desta vez com o nome corrigido.



BOLSA DE CINEMA - É interessante notar que a Bolsa de Cinema do jornal Folha de S. Paulo publicou a cotação de “Rastros de Ódio”, que teve 77,2% de ótimo e bom e 22,8% de regular e mau. Essa cotação era feita em forma de enquete pelo jornal junto ao público que, no primeiro dia de exibição de um filme, recebia um impresso para avaliar a película. Na mesma cotação feita pelo público paulistano, “Sete Homens Sem Destino” obteve 53,9% de ótimo e bom e 46,1% de regular e fraco, enquanto “A Última Carroça” obteve respectivamente 81,9 e 18,1%, vencendo “Rastros de Ódio” na avaliação popular feita pelo jornal. Avaliação muito mais precisa “Rastros de Ódio” vem obtendo através dos 55 anos em que continua a ser assistido, agora com a opção em DVD Blu-Ray que proporciona imagens ainda mais magníficas. E cada nova resenha e cada nova descoberta por parte dos mais jovens ratifica a importância desse western de John Ford. O quase nada que se falou sobre o filme quando de seu lançamento tem sido devidamente compensado pela abundância de estudos, citações e reconhecimento de "Rastros de Ódio" como uma das maiores obras cinematográficas de todos os tempos.


Acima e abaixo páginas 2 e 3 da revista 'Cinemin' com quadrinização de
"Rastros de Ódio", publicada inicialmente em 1957.



4 comentários:

  1. Vendo a historia de Rastros de Ódio pelo prisma mostrado nesta postagem, não há muito do que se admirar, haja visto que muitos classicos somente no futuro, mesmo que não tão distante, nasçeram realmente para o mundo como joias preciosas.

    Segundo também andei lendo, foi o mesmo ocorrido com Cidadão Kane e mais alguns outros filmes, que depois despontaram para o mundo como classicos.

    Esta já é a segunda reportagem que leio onde se fala de uma bolsa de cinema.
    Acho uma brilhante este parametro de classificar os filmes, dando aos cinéfilos um ponto de partida para suas escolhas.

    Aqui na Bahia jamais ouvi falar disso. Mesmo porque, segundo observo, é coisa de minha época. E, se isso acontecesse aqui em Salvador, por certo eu seria um sabedor.

    Outra observação que atentei são para o numero de faroestes lançados um atrás do outro.
    Neste caso aqui era mais ou menos igual, já que saíamos do cinema lendo os cartazes dos filmes que estavam para ser lançados. E westerns era o que não faltavam.

    Como aqui em Salvador existiam uns seis ou sete cinema muito perto uns dos outros, e como faroeste era a tônica do momento, raramente em todos não estava passando um destes.
    Era então saindo de um e entrando no outro. Uma verdadeira e saborosa farra.

    Assim, mesmo com algum atraso, Rastros de Ódio veio ter o seu reconhecimento de honra.
    Fato que não ocorreu com A ultima carroça, O preço de um homem e Sete homens sem destino que, mesmo sendo filmes com boa marca no genero, nunca alcançaram o patamar do primeiro.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  2. Darci se eu carregasse em minha cabeça um chapéu, ou boné ou seja lá o que fosse sem dúvidas alguma nesse momento eu o teria tirado e jogado ao chão. Que Postagem mais nostálgica, mágica e fantástica. Um verdadeiro deleite para qualquer infeliz que não teve o privilégio de ter vivenciado essas estreias e ler esses jornais em suas datas de lançamento. Rastros de ódio é muito especial, clássico, forte e perfeito. É sem dúvidas meu faroeste preferido junto com O Homem Que Matou o Facínora e Os Brutos Também Amam. Estou ensaiando uns rascunhos aqui para em breve postar ele meu blog, (morrendo de medo só de saber que você com certeza vai visitar a página e ver tal postagem...)Darci, muito obrigado por nos trazer toda essa riqueza expressa nessas linhas, sem dúvidas esse post é um dos melhores que já vi até o dia de hoje.

    Me desculpe pelo sumiço, ando cheio de trabalhos na universidade e sem tempo de atualizar minha página, mas agora consegui um tempinho para pelo menos visitar os blogs dos parceiros.

    Grande abraço

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  3. Darci, acabei de ler outro Post sobre o filme de Ford, não sei se você já leu... vale a pena visitar...

    http://clubedofilmeleleo.blogspot.com.br/2012/07/cinemateca-nos-rastros-do-western.html

    Abraço

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  4. Olá, Jefferson. Estive lá e deixei este comentário:
    Olá, Leonardo
    Uma vez me perguntaram qual tipo de filme eu mais gosto. Respondi: os faroestes filmados no Monument Valley; mais que estes, os faroestes filmados no Monument Valley dirigidos por John Ford; e mais ainda que estes, os faroestes filmados no Monument Valley, dirigidos por John Ford e estrelados por John Wayne. E você escreveu sobre aquilo que eu mais gosto nessa belíssima postagem. Parabéns. Não conhecia seu blog que me foi indicado pelo Jefferson. Modestamente também falo de faroestes (e apenas deles) no Westerncinemania. Apareça.
    Grande abraço do Darci Fonseca

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